Alegado erro médico tira vida a portuguesa no Canadá

FOTO: ARQUIVO PESSOAL
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Familiares de Palmira Alves pedem justiça, depois da morte de mulher no Hospital de Toronto. Nenhum advogado a quis representar na justiça.

A saudade ainda bate forte no peito de José Alves, um carpinteiro reformado de Innisfil, uma pequena cidade que fica a uma hora de Toronto.
“Todos gostavam da minha mulher. Ela tinha muita vida. Gostava de viver.”
A esposa de José, a cabeleireira Palmira Alves, morreu no início de 2019, depois de 4 cirurgias vasculares. A dor da perda é mais amarga para José porque acredita que a morte da mulher aconteceu por causa de um erro médico, 10 anos antes, em 2009.

“Destruíram a minha vida. Ela nada sabe porque está a dormir, mas eu sei”, diz com a voz embargada por causa das lágrimas.

Segundo José, Palmira Alves procurou um cirurgião vascular, por causa de problemas de circulação nas pernas. Depois da consulta, o diagnóstico: doença oclusiva aorto-ilíaca. Um problema vascular. O sangue não circula corretamente para os membros inferiores por conta de um bloqueio. Dá origem a dor, dormência, até mesmo gangrena. A solução apresentada pelo médico foi uma cirurgia de revascularização da aorta, em que um enxerto é colocado na artéria para desviar o sangue do local onde veio o bloqueio.

Palmira foi operada no Mackenzie Hospital, em Richmond Hill. Segundo o seu marido, recuperou-se bem da cirurgia. No entanto, quatro anos depois, em 2013, apareceram sinais de que algo não estava bem.

“Estava com febre alta, tomou medicamentos. Chamei ambulância e fomos para o hospital. Fizeram testes, vários testes e não descobriram nada”.

Depois de diversos exames em busca da razão da febre e de uma suspeita de que o enxerto na aorta estivesse infetado, o médico decidiu operar uma segunda vez.

“Foi muito difícil a recuperação na segunda cirurgia. Pesava 77 quilos e chegou quase aos 50. Emagreceu num ano”, conta José Alves.

A infeção persistiu e o cirurgião vascular operou uma terceira vez.

“Passou o ano de 2017 e os cortes não fechavam. Comecei a entrar no consultório do médico a fazer perguntas. A minha mulher pediu-lhe que visse outras opiniões além da daquele médico.”

Pela quarta vez foi operada. Desta feita no Sunnybrook Hospital, em Toronto. Deu entrada e não saiu de lá mais.

“Entrou para a cirurgia, por volta do meio-dia. Foram mais de 5 horas à espera e percebemos que algo não estava bem”, conta o marido em lágrimas.

Nos dias seguintes, uma intensa rotina de procedimentos cirúrgicos que envolveram a retirada de partes do intestino e duas amputações.

“Tinha infeção no intestino, foi operada. Ao fim de 3 e 4 dias, disseram-nos que tinham de retirar a perna esquerda, porque o sangue não circulava. Retiraram a perna esquerda, com a barriga aberta. Passaram-se mais dois ou três dias. Pela segunda vez, retiraram a parte da perna acima do joelho. O médico alertou-me: ‘se tiver mais algum problema eu não faço mais nenhuma cirurgia’”, revelou José.

A família alega que não sabia a razão da infeção de Palmira. Até que poucos dias antes, uma terceira médica teria feito uma revelação chocante à família. Um alegado problema na primeira cirurgia poderia estar ligado à persistente infeção que a mataria. A confirmação foi dada pela filha ao Correio da Manhã Canadá.

No histórico médico de Palmira no Sunnybrook Hospital, é possível ver que antes da quarta operação uma tomografia identificou que havia uma falha na parede do duodeno. Segundo a tomografia havia uma comunicação entre o duodeno e o enxerto da aorta. Na prática, segundo a tomografia, o sistema digestivo de Palmira estava em contacto direto com o sistema circulatório. Uma combinação fatal.

A família alega que o segundo médico não lhes informou do problema do duodeno antes da quarta cirurgia, o que levou a acreditar que estaria a encobrir o médico anterior.

Especialistas cardiovasculares, ao Correio da Manhã Canadá, afirmam que seria possível que um problema na primeira cirurgia causasse uma comunicação entre o duodeno e o enxerto da aorta, a chamada fístula aorto-duodenal. Segundo os especialistas, este é um problema conhecido que pode acontecer em cirurgias de revascularização. Entretanto dizem ser extremamente incomum que uma experiente equipa médica com diversos exames não descobrisse o problema. Além de ser atípico que pacientes com esta condição tenham uma longa vida. Segundo os mesmos especialistas, esta comunicação também pode formar-se em alguns casos de infeção, sem necessariamente estar ligada a um problema cirúrgico.

Depois da morte de Palmira Alves, a família decidiu processar os médicos, acreditando que o primeiro médico teria cometido um erro cirúrgico e que o segundo o teria encoberto.

O Correio da Manhã Canadá sabe que já existiam, pelo menos 3 processos na justiça de Ontário, contra o primeiro médico. Na página da internet do Colégio de Médicos e Cirurgiões também é possível observar que existem vários processos contra o mesmo médico. Apesar de tudo, nenhum advogado quis representar a família de Palmira na justiça.

As barreiras são mais do que muitas no Canadá. Os elevados custos de um processo contra médicos fazem com que muitos advogados só aceitem casos que valem 200 mil dólares. Os médicos são defendidos na justiça pela organização chamada CMPA (Canadian Medical Protective Association). Esta associação tem recursos de mais de 4 mil milhões de dólares para proteção jurídica de médicos. Uma parte deste valor vem de cofres públicos. Este sistema de defesa dos médicos reflete-se nas salas de audiência.

Segundo os dados da própria CMPA, no ano de 2019, 775 julgamentos foram resolvidos. Desse número, 448 foram descartados ou abandonados; 285 chegaram a acordo; 47 foram favoráveis aos médicos e apenas 5 foram favoráveis aos pacientes.

Sem conseguir levar o caso à justiça, a família de Palmira Alves decide levar o caso ao CPSO – Ordem de Médicos e Cirurgiões de Ontário. O órgão inocentou os dois cirurgiões. Para a ordem, o facto de Palmira continuar a fumar no pós-cirurgia, usar incorretamente antibióticos terão contribuído para o agravamento do caso.

Para a família, a decisão foi insatisfatória, porque alegam não ter tido quaisquer respostas às perguntas formuladas, especialmente sobre as origens da fístula no duodeno e razão pela qual não foram informados sobre o problema antes da quarta cirurgia.

O Correio da Manhã tentou chegar à fala com os médicos envolvidos e com o Sunnybrook Hospital, mas não obteve qualquer resposta. Já o Mackenzie Hospital, na nota enviada, lamentou a morte de Palmira Alves, mas não avançou com mais pormenores. Por telefone, um representante da Ordem de Médicos e Cirurgiões de Ontário recusou-se a comentar o caso.

Para José, o desfecho seria favorável à família caso estivesse em Portugal.

“Se isto fosse em meu país, este problema teria sido resolvido de outra maneira, e muito melhor do que foi no Canadá. Basta dizer isso: mentiram-me e esconderam-me a verdade”, diz José Alves.