
“Recebi uma mensagem de uma amiga que se encontrava de licença médica pela quarta ou quinta vez. Os problemas de saúde recorrentes que ela tem tido sensibilizaram-me e decidi fazer uma oração por ela.” Uma oração muito além das palavras, representada em várias telas de várias cores, tamanhos e matérias primas.
A sua última série de trabalhos deu origem à exposição Guérison, une prière, un voeu (cura – uma oração, um desejo) inspirada no desespero de uma amiga. “A minha obra, ao longo dos anos, tem sido sempre voltada para a alegria e a felicidade. Eu queria que esta série de pinturas fosse dedicada às pessoas que atravessam um período difícil e que fosse uma forma de lhes desejar a cura”, disse a artista.
Prova que por vezes o acaso vem a calhar, Alice não se tinha dado conta de que este tema vem a propósito da quadra natalícia, propicia à renovação dos votos anuais entre amigos e familiares. “Não pensei que viesse a coincidir com o final do ano, mas de facto será um momento precioso!” disse, feliz.
Nesta exposição, que decorreu até 4 de dezembro, Alice Mascarenhas foi mais longe na intenção que coloca na sua arte. Alice colocou um envelope dentro de uma pequena caixa, ao lado do portfólio que os convidados vão folheando ao passar. A qualquer momento, os visitantes podiam escrever um desejo de cura por alguém querido e inseri-lo, de forma totalmente confidencial, dentro da caixa reservada a esse propósito. No fim da exposição, Alice fará uma performance em vídeo onde, sem nunca ler os votos, que ficarão sempre confidenciais, irá reforçar a intenção conjunta de todos os participantes: “farei um desejo de benevolência para que os votos deixados dentro da caixa se concretizem”.
Alice diz que não se considera uma pessoa particularmente religiosa, mas sente que os valores cristãos são muito importantes na sua vida. “Gosto de conversar com as pessoas a respeito dos valores da vida. Dou grande importância à fidelidade, fazer as coisas corretamente, ser-se verdadeiro.”
Uma artista brasileira com fortes raízes portuguesas
Alice Mascarenhas deixou o Brasil há cerca de vinte anos. Vive no bairro português desde que chegou. “Não há dúvidas de que me senti realmente em casa nos primeiros minutos que aqui pus os pés. Encontrar todos os dias os senhores portugueses no Parque de Portugal era como ver meu querido avô todos os dias.”
Natural de Minas Gerais, Alice tem também raízes portuguesas, por parte do avô materno que era oriundo do Porto. “Eu tenho esse orgulho de ter sangue português. Com certeza, o fato de ter sido tão bem acolhida na comunidade colaborou em muito com a minha integração no Québec. A imigração é uma fase muito difícil da nossa vida… deixar a família toda no Brasil para viver num país tão frio não é fácil. A Clementina Santos estava connosco desde o início desta aventura e isso, a gente guarda com muito amor no coração!”
Alice sente-se muito próxima das raízes, que marcam também muito o seu trabalho: “Este verão fiz uma residência artística no Brasil onde tentei ir buscar as raízes dos artistas brasileiros da minha cidade de Minas Gerais. O que mais marcou aquele percurso foram as cores, o ocre, o vermelho, o laranja. Achei muito interessante como esses referenciais me influenciam ainda muito, porque são as cores que eu mais uso!”
A felicidade em tudo o que faz
Alice Mascarenhas mostra-se uma mulher sorridente e positiva, sempre com boas palavras. À imagem da pessoa que projeta ser, Alice diz que quer transmitir vitalidade e alegria através da sua arte. A natureza e a música são fontes de inspiração e temas como o amor e a felicidade são constantes nas suas obras. “Para a exposição Negritude brasileira, trabalhei com músicas brasileiras de negros do Brasil que militam pelos seus direitos. O que saiu dessa série foi muito amor! Não foi propositado, mas as músicas todas que me inspiraram falavam muito do carinho, do amor, da presença, da alegria”, conta.
Se pintasse a comunidade portuguesa, como seria o quadro?
“Eu iria trabalhar muito com as cores. Portugal para mim tem aquele carinho, muito amor e aquele abraço.”
