
Coimbra, 13 ago 2026 (Lusa) — O gabinete da secretária de Estado do Ensino Superior solicitou ao Procurador-Geral da República (PGR) para que ordene um inquérito à s suspeitas de antissemitismo, discriminação e incitamento ao ódio e violência, visando a Universidade de Coimbra, denunciadas por um estudante.
O documento, datado de 06 de agosto, e a que a agência Lusa teve hoje acesso, foi remetido ao Procurador-Geral da República, Amadeu Guerra, com conhecimento ao diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Criminal (DCIAP), Rui Cardoso, e do diretor do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) da Comarca de Coimbra, Jorge Leitão.
A “comunicação de factos com relevância criminal” ao Ministério Público (MP) acontece no âmbito do “dever de denúncia obrigatória”, após o gabinete da secretária de Estado do Ensino Superior tomar conhecimento da situação, “através de expediente oficial” remetido pelo gabinete do primeiro-ministro, em 22 de maio de 2026, com origem em comunicação de cidadãos, recebida oito dias antes.
Quanto aos factos alegadamente praticados e denunciados, o documento diz que, entre, pelo menos, julho de 2024 e maio de 2026, na Faculdade de Ciências e Tecnologia e noutras faculdades da Universidade de Coimbra (Direito, Medicina e QuÃmica) “terão sido afixados cartazes, autocolantes e grafÃtis com conteúdo antissemita e de incitamento ao ódio contra judeus, israelitas e sionistas, incluindo as expressões ‘Zionists should carry a certificate to prove they’re human’ e ‘Beware of Zionists'”.
Além disso, “nos mesmos locais e perÃodo, terão sido hasteadas bandeiras do grupo Hezbollah e exibidas imagens de apoio ao Hamas, bem como afixada a frase ‘Yahya Sinwar was a hero’, em aparente apologia e glorificação de organização e de atos terroristas”.
“O estudante de doutoramento Bar Harel [denunciante], de nacionalidade norte-americana, portuguesa e israelita, terá sido alvo de ameaças de morte, incluindo a expressão ‘your family desserves a second Holocaust’, e de uma alegada agressão fÃsica por ostentar uma pequena bandeira de Israel na sua mochila”, lê-se na comunicação remetida ao MP.
O estudante abandonou, entretanto, o doutoramento em Engenharia Informática na Universidade de Coimbra.
O gabinete da secretária de Estado do Ensino Superior refere ainda que “não são conhecidos, nesta fase, os autores concretos dos factos descritos, nem outros elementos de tempo, modo e lugar, os quais deverão ser apurados em sede de inquérito”.
“Solicita-se a Vossa Excelência [PGR] que se digne ordenar os procedimentos e diligências de investigação tidos por convenientes, nos termos legais, dando-se conhecimento a esta Secretaria de Estado do resultado que aos autos vier a ser dado, na medida do legalmente admissÃvel”, pede a tutela a Amadeu Guerra.
Em causa, refere ainda o documento, poderá estar a alegada prática de vários crimes: discriminação e incitamento ao ódio e à violência, apologia/glorificação pública de organização e de infração terrorista, ameaça e ofensa à integridade fÃsica simples, “sem prejuÃzo de outra qualificação que o Ministério Público tenha por mais adequada”.
Em resposta enviada hoje à Lusa, a Universidade de Coimbra (UC) diz que a partir do momento em que recebeu reportes deste estudante “providenciou, de imediato, o seu acompanhamento pelos serviços e entidades competentes”, nomeadamente apoio psicológico.
A UC sublinha que “todas as queixas” apresentadas pelo estudante “foram devida e cuidadosamente analisadas”, não tendo sido “indicados elementos concretos, como a identificação de eventuais intervenientes, a localização ou a limitação temporal”.
“E sendo a caracterização das situações denunciadas tão vaga e genérica, não foi possÃvel confirmar a sua veracidade nem promover ações subsequentes. Embora a UC tenha solicitado insistentemente ao estudante que fornecesse elementos adicionais, tal nunca aconteceu”, adianta a UC.
Os cartazes e outros materiais a que o estudante aludia não foram, de acordo com a UC, “localizados no campus universitário e os elementos fornecidos pelo mesmo não permitiram aferir os efetivos locais onde estariam alegadamente afixados”.
“A Universidade de Coimbra também participou à s autoridades competentes a situação reportada pelo referido estudante. Foi igualmente reportada à s autoridades a exigência, deste estudante, de três milhões de euros para que não avançasse com procedimentos legais contra a Universidade de Coimbra — forma de pressão que a UC rejeitou de imediato”, dá conta a UC.
A Lusa também contactou hoje a Procuradoria-Geral da República, aguardando ainda pelas respostas.
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