
Renovo a minha proximidade a todos os doentes e a quem cuida deles, bem como aos muitos trabalhadores voluntários que ajudam as pessoas que não podem sair de casa e aqueles que têm ajudado os mais pobres e os sem-abrigo”.
As palavras são do Papa Francisco, mas não ecoaram, como é habitual, na praça de São Pedro. O sumo pontífice falou às pessoas através da Internet, numa altura em que Itália mais parece um lugar fantasma, em resultado da quarentena obrigatória, decretada no passado dia 8, pelo ministro Giuseppe Conte, devido ao novo coronavírus.
Itália é um caso paradigmático da angústia que se vive hoje, à escala global, servindo também de exemplo de ação a outros países. Trata-se do segundo país do mundo mais afetado pela pandemia, logo depois da China, tendo ultrapassado, no passado fim de semana, os 24 mil casos confirmados e registados, em apenas 24 horas, 368 mortes – valor que transcende os próprios números diários chineses no pico do surto, como realça o The New York Times.
“Na Itália, esperamos demais, os países realmente deveriam começar a implementar medidas agressivas de contenção agora”, escreveu a investigadora italiana Silvia Merler no Twitter, no dia 10 de março. Desde então, a resposta das sociedades à pandemia tem evoluído a um ritmo galopante, à medida que o aumento do número de casos – no arranque da semana, eram já mais de 175,000 os infetados e 6,700 as mortes em mais de 160 países – agravam a certeza de que este é um problema muito sério, que vai trazer mudanças profundas ao mundo que achávamos conhecer até hoje.
Em Portugal e no Canadá, a chegada do surto foi seguida do aumento de pessoas em isolamento voluntário, incluindo figuras políticas, como o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, ou o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. Gestos que dávamos por adquiridos – como um abraço caloroso, tão próprio da cultura portuguesa – passaram a ser a exceção e não a regra. A proximidade deu lugar à distância e as relações humanas veem hoje na imposição do isolamento um desafio absolutamente inesperado.
Ironicamente, é sobretudo na Internet, que tantas vezes criticamos pelo potencial de “alheamento” da realidade, que as pessoas se confortam. Vídeos de italianos a cantar à janela, aproveitando o tempo de quarentena em casa, ou de portugueses a bater palmas à noite, em sinal de apoio aos profissionais de saúde, multiplicam-se nas redes sociais, num movimento de união inédito. São dias de isolamento, mas também de introspeção e de valorização das pessoas. Estamos separados, mas estamos juntos. E é essa certeza de que nos traz a esperança de que tudo vai passar e de que talvez possamos sair desta crise melhores do que éramos antes.
