Sabera e Dil sobem a palco para lembrar quem foi encostado à parede pela polícia

Lisboa, 30 nov 2025 (Lusa) — Sabera e Dil são imigrantes, ela do Bangladesh, ele do Nepal, e vão subir a palco pela mão do encenador Marco Martins, para lembrarem as pessoas há um ano encostadas à parede pela polícia na Rua do Benformoso.

Sabera Parvin, de 42 anos, escolheu Portugal para viver, mas quando chegou, em 2022, já quase tinha dado a volta ao mundo. “Estive 16 anos no Médio Oriente, onde era médica, com um alto cargo. Cada ano visitava um país diferente, […] visitei outras partes da Europa, como Noruega, Alemanha, Dinamarca… Mas sempre achei as pessoas desses países bastante mal-humoradas”, contou à Lusa, durante o ensaio geral da peça “Um Inimigo Público”.

Em Portugal, sente-se bem recebida: “Se vir um português e sorrir e disser ‘bom dia’, mesmo que ele não conheça a minha língua, que não me entenda, pelo menos vai sorrir e essa é a coisa mais importante, porque de manhã saímos e vamos ter um dia stressante e […] isso faz a diferença, é assim que o dia começa com vibrações positivas.”

Dil Bahadur Ale, de 28 anos, também não tem “nenhum tipo de negatividade” para com a população nativa portuguesa: “Quando cheguei, em 2017, trabalhei na agricultura, em São Teotónio [Alentejo] e as pessoas da comunidade portuguesa eram muito simpáticas. E ainda são, porque eu tenho muitos amigos portugueses. Receberam-nos bem naquela época, porque naquela época não havia muito imigrantes”.

Agora, há “imigrantes em todo o país” e isso “tem mudado um pouco” a perspetiva. Sobre o que aconteceu na Rua do Benformoso, em Lisboa, há um ano, Dil não é meigo nas palavras: “Apontaram a uma comunidade, a uma comunidade que trabalha, que faz negócios […]. O que eles experimentaram naquele dia foi totalmente inusitado […], de repente chegaram umas pessoas dizendo-lhes para se encostarem à parede e ficarem ali duas, três horas, sem nenhuma prova. Não foi bom.”

A 19 de dezembro de 2024, uma “operação especial de prevenção criminal” da Polícia de Segurança Pública (PSP) na Rua do Benformoso pôs dezenas de pessoas encostadas à parede, de mãos no ar, para serem revistadas.

O encenador Marco Martins quis integrar no elenco da peça “Um Inimigo do Povo”, escrita pelo norueguês Henrik Ibsen em 1882, pessoas que viveram aquele momento e que “nunca têm voz”, a não ser quando há incidentes. Para tal, promoveu audições com habitantes da Rua do Benformoso e da zona da Mouraria, habitada maioritariamente por imigrantes do subcontinente asiático.

Sabera e Dil são dois dos dez intérpretes amadores da peça, que se estreará a 13 de dezembro, no Theatro Circo, em Braga, e que conta ainda com a atriz Rita Cabaço e o ator Rodrigo Tomás.

Foi um processo de seis meses, com o qual Marco Martins quis contribuir “para quebrar a barreira”, dando “espaço e tempo” à voz das pessoas imigrantes. “Muitas vezes é a primeira vez que aquele indivíduo está a contar aquela história em particular”, notou, em entrevista à Lusa.

O que vai surgir em cena é “uma espécie de voz coral que tem a ver com o retrato de uma comunidade que não é homogénea, em que cada indivíduo tem uma história particular”.

Voz essa que “é evidentemente política” e que parte da “operação injustificada contra um grupo de imigrantes”¬¬ na Rua do Benformoso.

O que a imagem de 19 de dezembro do ano passado “tem de icónica é […] não só de teres uma força militar a encostar uma série de indivíduos contra a parede, sem saberes qual é a razão disso, mas também esses indivíduos que estão encostados à parede não terem rosto, não terem voz”, assinala.

Marco Martins confrontou-se com “um desconhecimento total” sobre aquelas comunidades: “O que é que um português comum sabe do Bangladesh, da política do Bangladesh, das razões que trazem aquelas pessoas até cá? Se se fizer a experiência de pedir a alguém para apontar Daca [a capital] no mapa, provavelmente 99% da população portuguesa não sabe.”

Porém, é “uma comunidade essencial para a nossa economia, um dos maiores contribuintes para a Segurança Social […] e são tratados de formas muitas vezes sub-humanas”, denuncia.

No lugar onde está a comunidade do subcontinente asiático podiam estar outras comunidades imigrantes, porque o coro que subirá a palco “é a voz da imigração contemporânea”.

“Um Inimigo do Povo” é também sobre “o lugar que elas ocupam dentro da sociedade, as dificuldades de integração, de legalização, a discriminação, a forma como essa não legalização acaba por conduzir, no fundo, a uma exploração, direta ou indireta, consciente ou inconsciente”.

Nas palavras do encenador: “É um sistema em que somos todos culpados, não há inocentes”.

Sabera é disso prova, reconhecendo-se de uma “família muito abençoada” pela sorte: “Cada pessoa, cada imigrante tem uma diferente história de vida e diferentes visões. […] Todas as histórias aqui são verdadeiras e cada uma delas é dolorosa, tem tantos desafios e [há] a coragem [das pessoas] de pensarem além dos seus limites e de alcançarem os seus sonhos.”

Otimista confessa, partilha: “Estou muito esperançosa na nova geração. Quando a minha filha vai para a escola, entra na escola e, mesmo sendo asiática, é abraçada por todos os amigos, e eles são todos portugueses. Beijam-se e conversam. Não sinto que a estão a discriminar. Acho que [a atualidade] é apenas um capítulo, é apenas um mau tempo. A nova geração vai trazer novos pensamentos, novas felicidades, um novo progresso.”

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