
Porto Príncipe, 13 mai 2026 (Lusa) – Os moradores do bairro Cité Soleil, na capital do Haiti, protestaram e exigiram proteção do Governo depois de a violência entre grupos de crime organizado ter forçado centenas de pessoas a fugir das suas casas.
Roselaine Jean-Pierre, de 67 anos, estava entre as duas dezenas de pessoas que se juntaram num cruzamento em Cité Soleil, na terça-feira, enquanto seguravam ramos de árvores e exigiam a intervenção da polícia, mesmo com tiros a serem disparados nas proximidades.
“Não fiz nada para merecer isto”, disse Jean-Pierre, que fugiu de casa no domingo e está agora a dormir nas ruas da capital, Porto Príncipe.
Alguns dos manifestantes disseram ter visto pessoas a serem mortas no fim de semana em Cité Soleil, onde também era possível observar carros queimados e vacas mortas. As autoridades haitianas não divulgaram qualquer informação sobre vítimas.
“Sei de sete pessoas que foram mortas e também de pessoas que foram baleadas”, disse Michel-Ange Toussaint, que tinha regressado brevemente à sua casa em Cité Soleil para ir buscar algumas roupas.
A residente disse que os ataques contra civis começaram no domingo, levando muitas pessoas a fugir da área em busca de segurança.
“Foram os nossos bons pés que nos salvaram”, disse Toussaint.
Num comunicado divulgado na segunda-feira, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF)anunciou a evacuação do hospital do grupo humanitário em Cité Soleil após os intensos confrontos de domingo.
O Centre Hospitalier de Fontaine, outro hospital que opera em Cité Soleil, disse na terça-feira que também suspendeu as operações devido ao surto de violência que começou no domingo, e teve de evacuar todos os pacientes internados, incluindo 11 recém-nascidos.
No sábado, as Nações Unidas (ONU) denunciaram uma situação de violência extrema no Haiti, sublinhando a morte de 1.600 pessoas devido a incidentes violentos no primeiro trimestre do ano, a maioria provocados pelas forças de segurança.
O último balanço do Gabinete Integrado das Nações Unidas no Haiti regista pelo menos 1.642 pessoas mortas e 745 feridas durante estes três meses, apesar de certos “avanços em matéria de segurança em algumas zonas do centro de Porto Príncipe”, a capital.
O problema reside no facto de a violência se ter alastrado a outras zonas do país, como os departamentos de Centro e, sobretudo, Artibonite, segundo o responsável pelo gabinete da ONU, Carlos Ruiz Massieu.
Em Artibonite, uma série de ataques coordenados por organizações criminosas em 16 localidades do departamento, dirigidos contra grupos de autodefesa locais, causou pelo menos 83 mortos e 38 feridos.
No entanto, e de acordo com os números apresentados pela ONU, os ‘gangues’ são responsáveis por 27% das vítimas, sendo que as forças de segurança são responsáveis por 69%.
“Com dezenas de civis entre eles, incluindo crianças, enquanto as forças de autodefesa representam os restantes 4%”, acrescentam.
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