
Tete, Moçambique, 07 mai 2026 (Lusa) – O Presidente moçambicano classificou hoje como boatos e mentiras as superstições sobre alegados desaparecimentos de órgãos genitais, associadas a violência que causou 58 mortos no paÃs, sublinhando que não há registo de qualquer caso clÃnico.
“Estamos à procura de uma pessoa só como prova de ter desaparecido os seus órgãos sexuais ou ter se atrofiado como resultado de alguém o ter cumprimentado ou (…) tocado. Não existe”, declarou o chefe de Estado durante uma visita ao distrito de Mágoè, na provÃncia de Tete, centro do paÃs.
Segundo Daniel Chapo, desde o surgimento das superstições sobre o alegado atrofiamento, encolhimento ou desaparecimento de órgãos genitais após o toque de outra pessoa, em 18 de abril, as autoridades de saúde não registaram até ao momento qualquer caso confirmado de vÃtimas.
As superstições tiveram inÃcio na provÃncia de Cabo Delgado, tendo-se posteriormente espalhado para outras regiões e para as redes sociais.
“É tudo boato, é tudo mentira e as pessoas estão a agredir outras pessoas, estão a linchar pessoas, estão a matar pessoas com base no boato e não constitui nenhuma verdade”, frisou o Presidente moçambicano.
Especialistas moçambicanos defenderam hoje uma análise do contexto social que alimenta as superstições, procurando identificar a “quem convêm” mitos que nascem da “histeria social”.
“São doenças que nascem da histeria social, ou seja, tudo que eu desconheço, levo a questão do sobrenatural para a coisa. Numa perspetiva antropológica é preciso entender em que contexto surge, quais são os atores envolvidos e a quem convém que isso continue dessa forma”, disse hoje à Lusa o antropólogo moçambicano Alberto Chimoio.
Segundo o académico, há agora a necessidade de estudar os grupos sociais envolvidos nessa superstição e perceber o contexto.
Por sua vez, o sociólogo moçambicano Roque Tembo salientou a importância de compreender o fenómeno numa perspetiva histórica, sublinhando que, antes das atuais crenças sobre o alegado desaparecimento de órgãos genitais, já se tinham registado outras manifestações semelhantes.
Para Roque Tembo, a solução também passa necessariamente por voltar à raiz do problema: “É preciso entender primeiro os valores culturais, a própria sociedade, a cultura no seu todo da população e acompanhar a dinâmica social”.
Na quarta-feira, as autoridades anunciaram que o número de mortos em linchamentos motivados por estas superstições subiu para 58, após novos casos registados na região centro, sobretudo na provÃncia de Manica.
Especialistas de saúde reiteram que os rumores não têm base cientÃfica, sendo os casos associados a stress, medo e perceções erradas.
A Comissão Nacional de Direitos Humanos já tinha denunciado anteriormente a escalada de violência associada a estas crenças, alertando para a necessidade de intervenção urgente para travar os linchamentos e proteger vidas.
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