PR defende que “os autores não podem ser dispensados” perante avanço da IA

Lisboa, 22 mai 2026 (Lusa) — O Presidente da República defendeu hoje que “os autores não podem ser dispensados” e que é preciso “evitar a fragmentação do conceito de autor e a sua desumanização” perante o avanço da Inteligência Artificial (IA).

António José Seguro discursava no encerramento de uma cerimónia de comemoração do 101.º aniversário da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em Lisboa, em que foram distinguidos Sérgio Godinho e Pedro Abrunhosa, entre outros autores.

“Estamos a tempo, no meio dos inegáveis progressos atuais, de proteger a humanidade que nos resta. Contamos com os autores”, declarou o chefe de Estado.

No decurso da cerimónia, Miguel Sousa Tavares fez um apelo ao chefe de Estado para que “use todos os seus poderes, explícitos, implícitos, subentendidos, subreptícios, para convencer o Governo a deitar para o lixo este Acordo Ortográfico” — um tema que António José Seguro não abordou, depois, no seu discurso, que levava escrito.

O Presidente da República não quis falar aos jornalistas sobre temas da atualidade à margem desta cerimónia.

Na sua intervenção, António José Seguro enalteceu o papel da SPA, afirmando que sem ela “a vida dos autores teria sido substancialmente diferente num mundo em que a criatividade e a imaginação nem sempre foram justamente recompensadas”, e abordou o tema do avanço da Inteligência Artificial (IA).

Dirigindo-se aos autores, disse-lhes: “Acredito que esse debate ainda mal começou entre nós, mas advirto-vos da necessidade do vosso contributo”.

O chefe de Estado referiu que “é impossível travar esse processo” e falou dos “progressos, nem todos positivos, da IA”.

“Falo-vos dos algoritmos que modelam as nossas escolhas, das máquinas que falsificam a realidade, dos distúrbios da atenção, da preguiça cognitiva, e do risco da excessiva velocidade, que se tornou um dos imperativos da atividade humana em geral”, apontou.

António José Seguro comentou que “nem todos os operadores de IA são entidades totalmente fiáveis quando se trata de mudar os sistemas de trabalho e as formas de vida humana numa economia global” e alertou para as ameaças aos direitos de autor.

“Seja como for, as possibilidades da IA são imensas e espalham-se pelo mundo a uma velocidade vertiginosa. Uma das suas características, aliás, é a velocidade sobre-humana”, prosseguiu.

Segundo o Presidente da República, resta “aproveitar a sua velocidade”, mas, ao mesmo tempo, há o dever de “preservar a qualidade humana do tempo e das suas criações”.

“E isto tem a ver com o papel dos autores, com a sua sobrevivência enquanto tal, e como não podem ser dispensados da nossa vida”, acrescentou.

O chefe de Estado argumentou que “as obras dos autores estão tocadas por uma espécie de divina imperfeição que as torna humanas e capazes de construir memória futura”.

“É por isso que o papel dos autores é tão importante, e é por isso que devemos evitar a fragmentação do conceito de autor e a sua desumanização”, defendeu.

IEL // JPS

Lusa/Fim