
BrasÃlia, 15 ago 2026 (Lusa) — O Presidente brasileiro, Lula da Silva, chega ao primeiro ato público da campanha no domingo a liderar as sondagens, mas enfrenta o desafio de renovar o discurso e reconquistar a classe trabalhadora.
Essa é avaliação de especialistas ouvidos pela Lusa nos últimos dias, que comentaram o momento em que o polÃtico de esquerda e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) arranca para o inÃcio oficial das eleições gerais no Brasil.
Lula realiza neste domingo o primeiro ato oficial da campanha no Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo.
A escolha do local, associado à Vila Euclides, segundo o próprio PT, pretende recuperar o simbolismo das origens polÃticas de Lula, que entrou na vida pública como lÃder sindical dos metalúrgicos e liderou greves históricas na década de 1970.
“Lula (…) nunca negou as origens sindicais, e todas as suas campanhas têm sido lançadas em São Bernardo. Isso tem um grande simbolismo”, afirmou Eduardo Grin, cientista polÃtico da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Graziella Testa, cientista polÃtica e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), também vê no ato uma tentativa de reconectar o PT com os trabalhadores, num momento de crescimento da mobilização polÃtica da direita.
“Acho que é muito simbólico essa tentativa de Lula de resgatar o que seria uma volta à s bases, ou uma reconexão com os trabalhadores”, afirmou Testa ao relacionar esse movimento à campanha pelo fim da escala 6×1, uma das bandeiras do PT.
A proposta de redução da jornada para cinco dias, sem redução salarial, foi aprovada pela Câmara, mas ainda aguarda votação no Senado.
Para Testa, o mundo do trabalho mudou e parte dos trabalhadores deixou de se identificar como tal, passando a adotar a linguagem do empreendedorismo.
“Hoje a gente tem menos gente que se vê como trabalhadora, ainda que na prática o seja, mas que se vê como empreendedor”, afirmou, referindo-se a trabalhadores de plataformas digitais, entregadores e microempreendedores.
Essa linguagem, segundo a professora, tem maior capacidade de alcançar o eleitorado identificado com a direita, embora esses mesmos trabalhadores ainda possam atribuir ao PT conquistas sociais e laborais consideradas importantes.
O eleitorado brasileiro mudou profundamente desde a primeira eleição de Lula, em 2002, e atualmente é “maioritariamente de direita”, avaliou Graziella Testa.
“Nos dois primeiros mandatos do Lula (2003-2010), o eleitorado era maioritariamente de esquerda ou não se dizia de direita. Hoje, o eleitorado é maioritariamente de direita”, afirmou.
Para a docente de ciência polÃtica, a transformação não significa necessariamente que os eleitores tenham abandonado todas as ideias associadas à esquerda ou ao PT, mas revela uma alteração profunda na forma como uma parcela significativa da população se identifica politicamente.
Grin considera que o PT não perdeu a ligação com a classe trabalhadora, mas avalia que conquistas sociais que antes eram novidades já não produzem o mesmo efeito polÃtico.
Por isso, na sua avaliação, o PT continua ligado à classe trabalhadora, mas precisa de ampliar a capacidade de diálogo com setores que hoje apresentam outras preocupações, incluindo segurança pública, novos trabalhadores e valores conservadores.
“Precisa avançar um pouco mais além disso, tem que entrar em algumas agendas que a esquerda em geral tem dificuldade de tratar, como a segurança pública”, afirmou.
Grin citou também a necessidade de dialogar com os chamados novos empreendedores, que rejeitam muitas vezes a representação sindical, e com os evangélicos, grupo que considera importante para a disputa eleitoral.
Aos 80 anos, Lula concorre ao quarto mandato presidencial e tem como principal adversário o senador Flávio Bolsonaro, de 45 anos, filho mais velho do ex-Presidente Jair Bolsonaro.
Entre os problemas de Lula, Eduardo Grin destaca a inflação dos alimentos, o endividamento das famÃlias e as investigações da PolÃcia Federal envolvendo ex-funcionários do Governo, aliados polÃticos e o filho mais velho do Presidente, suspeito de tráfico de influência.
Para Graziella Testa, esses casos podem prejudicar Lula, mas o impacto eleitoral dependerá sobretudo da narrativa construÃda e da forma como as investigações reverberarem entre os eleitores.
Os especialistas avaliam que Lula chega à campanha procurando ampliar o discurso para além do Bolsa FamÃlia, defendendo temas como defesa nacional, saúde dos idosos, jornada de trabalho, recursos minerais estratégicos e redução do Imposto de Renda.
O Governo também adotou nos últimos meses medidas de crédito e renegociação de dÃvidas.
O grande desafio, segundo Grin, será convencer os eleitores de que Lula, aos 80 anos e na sua sétima eleição, ainda tem algo novo a propor.
Em 2022, acrescenta, Lula beneficiou do desgaste provocado pela pandemia de covid-19 e pelo “golpismo” de Jair Bolsonaro, mas hoje precisa defender a própria gestão e enfrentar um cenário internacional mais complexo.
Graziella Testa, por sua vez, sustenta que compreender a mudança do perfil do eleitor é essencial para interpretar a atual disputa eleitoral, sobretudo porque o eleitor que Lula procura reconquistar não é necessariamente o mesmo que sustentou as suas primeiras vitórias presidenciais.
MYMA // JMC
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