
Maputo, 20 abr 2026 (Lusa) — No mercado Janete, centro de Maputo, Cláudio Chipanga usa uma planta-champô, da Floresta de Miombo, para lavar o cabelo, combater a caspa e piolhos no seu salão, uma prática ancestral moçambicana que traz “memórias boas” de avó em clientes que por ali passam.
“Além do resultado no cabelo, que é saúde para o cabelo, o que eu gosto desta planta é que pode vir cá uma anciã ou uma senhora da terceira idade, quando vê pela primeira vez esta planta, sempre se lembra da avó dela”, diz à Lusa Cláudio Chipanga, mais conhecido por Cadino, proprietário do Salão Afrocêntrico Carapinha.
Logo à entrada do mercado Janete, na capital moçambicana, a planta dicerocaryum senecioides, conhecida como “lilhelhua” em Maputo, atrai as senhoras, principalmente de terceira idade, para o salão de Cadino em busca de pedaços de memória da sua infância: “elas chegam até a pedir um pouco e eu ofereço”, conta.
“[A planta] também traz sempre essa memória boa da infância. Faz com que elas façam rapidamente uma viagem ao passado e lembrem sempre desses momentos com ternura”, explica, enquanto cumprimenta uma das suas clientes, recém-chegada ao salão.
A planta-champô, posta em pequenos molhos e pendurada na entrada do Carapinha, desperta nas mulheres moçambicanas “memórias boas, tanto da mãe e da avó”, quando lavavam o seu cabelo, e faz recuar, momentaneamente, para o tempo em que viviam em lugares mais naturais, no bairro, distrito ou na província.
“Vêm muitas senhoras distintas que já estão hoje em dia em posições boas para fazer o cabelo ou [apreciar a planta]. Algumas já são clientes, outras passam a ser depois que nos conhecem”, orgulha-se Cadino, que está há 26 anos no mercado a promover o uso de produtos naturais para o tratamento do cabelo e da pele.
O champô natural, feito a partir de uma erva rastejante abundante na extensa Floresta de Miombo moçambicana, serve como condicionador, anticaspa, além de combater o piolho e a “tinea”, uma infeção fúngica e contagiosa que afeta também o couro cabeludo.
Basta apenas um pequeno molho de “lilhelhua” fresca ou seca posto em água fria ou morna para libertar uma mucilagem viscosa, que serve de sabão e é aplicada sobre o cabelo, sem cheiro forte, explica o dono do Carapinha.
“Depois é só pegar na planta, na água e passar no cabelo do cliente e depois o cabelo fica bonito, fica macio, revitaliza a cor e estimula também o crescimento do cabelo”, explica à Lusa Cadino, enquanto mostra, com uma caneca de água na mão, o líquido gerado pela planta.
A “lilhelhua” é uma planta “bem abençoada”, assinala, acrescentando que em pesquisas feitas pelo país soube que a erva serve também de alimento e é usada por gestantes, em algumas regiões, para facilitar a expulsão do bebé durante o parto.
A planta-champô, encontrada em qualquer lugar que tenha uma pequena mata, funciona para todo o tipo de cabelo e Cadino quer levar estas vantagens para além de Maputo, através da Campanha Nacional de Saúde Capilar, em que o “lilhelhua” é uma das figuras de cartaz.
“Esta planta-champô, ela não tem custo porque a natureza nos oferece. Então, nós podemos explicar onde a pessoa vai buscar, pode ir lá buscar um saco e lavar o cabelo da família por um mês, um ano, sem precisar de ir a uma loja para comprar um champô ou um condicionador”, esclarece, pedindo apoio para realizar a campanha.
Cadino quer “despertar às pessoas” sobre a existência da planta-champô, numa iniciativa que terá como foco inicial escolas, orfanatos, lares de idosos e campos de acolhimento de vítimas de desastres naturais e conflitos, “onde pensar em autocuidado é a última coisa”.
“Quando uma cuida da outra está a relaxar, está a esquecer o trauma que teve. Quando termina aquele processo de cuidado o resultado daquilo, que é aquela beleza, aquele resultado bonito, também funciona como uma terapia para aquelas pessoas”, refere.
Moçambique alertou, em setembro de 2025, para o “risco alarmante” do desmatamento e degradação acelerada dos solos na África Austral, com pelo menos 800 mil quilómetros quadrados de Miombo perdidos desde 2000, pedindo esforços coletivos para travar o desflorestamento.
Assim como as autoridades moçambicanas, Cadino também se preocupa e quer a preservação da Floresta de Miombo, de que faz parte o “lilhelhua”, uma das “grandes estrelas” na sua missão de tratar, valorizar e resgatar o cabelo natural.
“Esta é uma planta que precisa ser valorizada, precisa de haver muita atenção sobre ela. É mais um daqueles recursos que Moçambique tem, que talvez nos passe despercebido”, conclui, com um sorriso no rosto, mas avisa: “é só não acabarem, não destruírem tudo”.
O “lilhelhua” até passa despercebido para muitos, mas não para Amélia Francisco, 24 anos, “usuária a 100%” e que “adora imenso” a planta-champô.
“Me traz memórias saudáveis, agradáveis porque a primeira coisa que me aparece é a minha avó quando dizia ‘venham todos (…) lavar o cabelo’, então sentávamo-nos ali e lavávamos o cabelo”, lembra a jovem, que usa a planta desde mais nova, com “um tempinho” a meio em que se desviou um pouco.
“Agora por voltar a trabalhar com o natural voltei a me familiarizar muito bem com ele e não o dispenso por nada”, declara Amélia.
A Floresta de Miombo cobre dois milhões de quilómetros quadrados e garante a subsistência de mais de 300 milhões de habitantes de 11 países da África Austral, nomeadamente Moçambique e Angola, incluindo pastagens tropicais e subtropicais, moitas e savanas.
Constitui o maior ecossistema de florestas tropicais secas do mundo e enfrenta atualmente, entre outros, problemas de desflorestação, sendo o processo de recuperação liderado por Moçambique.
O Governo moçambicano esperava mobilizar investimentos para proteger a Floresta do Miombo, estimados no plano de ação em 550 milhões de dólares (495 milhões de euros), dos quais 153 milhões de dólares (138 milhões de euros) foram garantidos desde 2022, tendo somado mais 500 milhões de dólares (450 milhões de euros) em 2024.
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