
Maputo, 07 set 2026 (Lusa) – Em páginas do “Brado Africano” hoje envelhecidas, marcadas com “Visado pela Comissão de Censura”, Noémia de Sousa publicou, nos anos 1950, poemas com uma voz crítica emergente, décadas antes de ser consagrada como a “mãe dos poetas moçambicanos”.
Edições daquele semanário de 1953 a 1956, consultadas em arquivos em Maputo pela Lusa, mostram as colaborações de Noémia de Sousa (1926-2002), assinando textos como “Magaíça”, “Chimâmi”, “Sangue Negro” e “Poesia, não venhas!”, num dos principais espaços de expressão africana sob domínio colonial.
Publicado em Lourenço Marques (atual Maputo), o jornal assumia na própria capa o controlo do regime, com a menção obrigatória à censura, num período em que a crítica direta era limitada e a literatura funcionava como uma das formas de intervenção. Mais abaixo surgia, em várias edições ao longo dos anos, a escrita de Noémia de Sousa, com regulares referências à dor, ao sofrimento, ao nacionalismo africano e até à escravatura, temas que passavam pelo crivo dessa mesma censura.
É nesse contexto que publica nas mesmas páginas, em grande destaque de capa, em 03 de outubro de 1953, “Magaíça”, poema e alcunha dos rapazes do sul que seguiam para as minas do país vizinho. Nele, Noémia de Sousa retrata os trabalhadores enviados para as minas da África do Sul, dando voz a uma realidade de exploração raramente exposta nos meios formais da época.
Noémia de Sousa continua a publicar no “Brado Africano” novos textos, confirmando uma presença continuada num espaço em que a poesia convivia com o debate político, crónicas sociais e notícias do aparelho colonial.
Na década de 1940, a poeta viveu numa casa de madeira e zinco na Mafalala, bairro central de Maputo, também de figuras como Samora Machel ou Eusébio, e onde escreveu poemas como “Deixa passar o meu povo”, tornando-se referência do nacionalismo cultural africano. Saiu daquele bairro em 1949 por motivos políticos.
Em 28 de janeiro de 1956 publica “Chimâmi”, um registo mais íntimo, marcado pela memória e pela relação afetiva, mas onde permanecem sinais de desigualdade social e privação, traduzidos em imagens de infância e ausência. Nessa mesma capa, ironicamente, um outro texto aborda a “oportunidade e perfectibilidade do Estatuto dos Indígenas”.
Poucas semanas depois, em 18 de fevereiro de 1956, surge “Sangue Negro”, que partilha a capa do “Brado”, entre outros, com um texto sobre o “símbolo de fraternidade racial em pleno ar”. Já o poema dessa edição viria a dar nome à principal coletânea de Noémia, editada apenas décadas mais tarde, e onde África é apresentada como figura maternal e símbolo de identidade coletiva, num discurso que associa pertença, dor e resistência.
Nesse mesmo ano, em 07 de julho, publica ainda “Poesia, não venhas!”, texto de tom introspetivo que partilha a capa com notícias da época, que discutiam se “há ou não há” música “tipicamente moçambicana” ou a utilidade da construção da Praça de Touros de Lourenço Marques (hoje devoluta, no centro de Maputo).
Nesse poema, chega a questionar o próprio lugar da criação literária perante uma realidade marcada por limitações e constrangimentos, os mesmos que mais tarde, pela participação nos movimentos independentistas africanos, a levaram ao exílio.
A sucessão de poemas num espaço de meses mostra Noémia, com 30 anos, em atividade regular, integrada num ambiente intelectual que fazia do “Brado Africano” um dos principais veículos de expressão africana urbana, apesar da vigilância apertada do regime colonial, como se podia ler logo no topo de cada página.
Fundado no início do século XX e ligado à Associação Africana da então Província de Moçambique, o jornal constituía um raro espaço onde escritores, jornalistas e ativistas africanos podiam intervir publicamente, ainda que sujeitos à censura.
É nesse contexto que a escrita de Noémia de Sousa ganha dimensão, combinando denúncia social, afirmação cultural e reflexão pessoal.
“Aquele trabalho, principalmente no jornal, apaixonava-me”, disse Noémia, em entrevista ao professor de literaturas africanas Michel Laban, gravada entre 21 e 25 de julho de 1984, em que contava que “trabalhava durante o dia”, seguindo depois para a Associação Africana, que começou a ter uma vida de “que as autoridades não estavam a gostar”.
São conhecidos 46 poemas de Noémia de Sousa, escritos entre 1948 e 1951, e que foram circulando em jornais locais nesse período, como foi o caso do histórico “Brado Africano”, mas a sua reunião numa única publicação só aconteceu em 2001, com o livro “Sangue Negro”.
Apesar de reconhecida pelos poemas, na entrevista a Laban, Noémia de Sousa afirmava que não se considerava poetisa, mas alguém que estava habituada a escrever, já que cresceu “rodeada de livros, jornais, revistas de todo o género”.
“Agora quero dizer-lhe o que acontece, que eu tenho dito e ninguém quer acreditar, é que eu não sou poetisa. Escrevi assim umas coisas porque estava habituada a escrever”, disse.
Nesse livro de entrevistas, denominado “Moçambique, encontro com escritores”, Noémia revela que começou a escrever no fim dos anos 40, apontando “Canção fraterna” como o seu primeiro poema, entre tantos outros “que se perderam pelo caminho”.
Um caminho de que fugia quando escolheu as iniciais N.S. para assinar os seus textos, tentando escapar do que denominou “centro das atenções”, fazendo com que pensassem ser da autoria do seu irmão Nuno um dos seus poemas, na altura.
“Nunca gostei muito de ficar na ribalta, sabe? Não é modéstia, só que não gosto. É a minha maneira de ser. Não gosto de estar no centro das atenções, não gosto. Assinei com as iniciais dos meus nomes menos conhecidos porque eu chamo-me Carolina Noémia Abranches de Sousa e eu assinei sempre Carolina Abranches. Noémia de Sousa eram os menos conhecidos e eu assinei N.S.”, explicou.
Nascida em 20 de setembro de 1926, em Lourenço Marques, Noémia de Sousa é hoje considerada a “mãe dos poetas moçambicanos”. Trabalhou mais tarde em Lisboa na Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP), que esteve na origem da atual agência Lusa.
Passou a exercer atividade jornalística em 1956 e, após a independência, regressou a Lisboa em 1975, onde trabalhou na área noticiosa. Faleceu em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal.
PVJ // VM
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