Nem tudo o que parece notícia é e 59 jovens estão a aprender a desconfiar

Lisboa, 06 set 2026 (Lusa) — De jornais nas mãos, blocos de notas abertos, entre jogos do galo, palavras-cruzadas e ‘sudoku’, 59 jovens passaram uma semana em Sintra para perceber como se fabrica a desinformação e, sobretudo, aprender a desconfiar daquilo que parece verdade.

O ambiente é descontraído, mas a conversa gira em torno de um tema quotidiano: a desinformação. A sessão decorre na Escola de Verão da Fundação Francisco Manuel dos Santos, este ano dedicada à “(Des)informação e Democracia”.

Divididos em oito grupos, os participantes, entre os 15 e os 17 anos, saíram para o terreno, falaram com pessoas e procuraram “estórias” que apresentaram aos colegas e à equipa da revista de jornalismo narrativo Divergente, que os acompanhou.

Antes das apresentações, uma frase da jornalista da Divergente Sofia da Palma Rodrigues resume a iniciativa: “Um bom jornalista será uma boa pessoa e um bom cidadão”.

Depois, a atenção concentra-se no ecrã. Quando as imagens terminam, ouvem-se aplausos na sala. Há quem continue a olhar para o ecrã, quem troque comentários com os colegas e quem reveja, naquele momento, uma experiência que começou com uma tarefa simples: sair à rua e contar uma história.

Leonor Rio, 16 anos, aluna do 11.º ano, em Felgueiras, quer seguir astrofísica. Com outros cinco colegas, saiu para o centro de Sintra à procura de pessoas que aceitassem contar a sua história diante de uma câmara.

A tarefa revelou-se mais difícil do que esperavam. Algumas pessoas recusaram e outras inventaram desculpas.

O grupo percebeu então que a abordagem tinha de mudar: ir todos juntos nem sempre funcionava e, por vezes, era melhor começar por conversar sem ter imediatamente o telemóvel preparado para gravar.

Foi assim que começaram a surgir histórias que não estavam à espera de encontrar. Uma pessoa contou que não era feliz no trabalho. Outra continuava a trabalhar por amor aos cavalos.

“Começámos a falar com pessoas que escolhemos aleatoriamente e comecei a perceber que cada pessoa tem uma história tão única”, contou Leonor.

Ao ver o resultado, a jovem emocionou-se. Disse ter percebido que cada pessoa tem uma personalidade diferente e que, de cada conversa, acaba por ficar “um bocadinho dessa pessoa”.

A experiência também lhe mostrou que ouvir as histórias dos outros pode ajudar a combater estigmas. Outro grupo descobriu uma coisa diferente: nem sempre é preciso falar.

Um dos participantes começou a deixar momentos de silêncio depois das perguntas. Em vez de avançar para a questão seguinte, esperava, e as pessoas “diziam sempre algo mais”.

A experiência mostrou aos jovens que dar tempo e espaço pode trazer novas respostas e dimensões à história. O silêncio também faz parte de uma entrevista.

Na sala, enquanto os grupos apresentam os vídeos, as experiências cruzam-se. Uns recordam as pessoas que recusaram falar, outros contam mudanças de estratégia e há quem fale dos momentos em que simplesmente não sabia por onde começar.

Para Sara Carvalho, 15 anos, de Lisboa, que está no 11.º ano e quer seguir relações internacionais, uma das maiores dificuldades foi perceber como transformar aquilo que tinham encontrado na rua numa história.

No final, perceberam que não precisavam de contar algo extraordinário, apenas “a vida das pessoas”.

A experiência de reportagem acabou por funcionar como uma ponte para o tema que dominou a semana: a desinformação.

Sara assume que a desinformação é particularmente difícil de combater porque está presente no quotidiano.

Apesar de procurar a origem das informações, reconhece que acredita facilmente no que vê nas redes sociais. Um vídeo que parece real pode ser suficiente para provocar uma primeira reação.

Por vezes, explicou, a informação é demasiado recente para aparecer imediatamente nos jornais ou na televisão. E, enquanto espera pela confirmação, a primeira imagem permanece.

“Vou ficar sempre com isso na cabeça, sempre com aquela primeira imagem que recebi das redes sociais”, explicou.

Leonor também passou a olhar de outra forma para o que encontra nas redes sociais.

“Antes da escola de verão, quando desconfiava de uma informação, procurava-a no Google e tentava encontrar a mesma notícia numa fonte em que confiasse.” Agora, diz ter aprendido a desconfiar também de uma armadilha mais difícil de reconhecer: a tendência para acreditar naquilo que confirma o que já pensamos.

“Estou nas redes sociais, vejo alguma coisa que vai ao encontro do que eu penso, até pode não ser verdade, mas eu acredito naquilo porque está tão preso nos meus pensamentos que parece-me verdade”, explicou.

A aprendizagem passa por “dar um passo atrás” e olhar para a informação a partir de uma perspetiva exterior.

Já Pedro Figueiredo, 17 anos, de Leiria, aluno do 12.º ano e interessado em medicina, olha para o fenómeno a partir de outra preocupação: a quantidade de desinformação que circula diariamente, tanto nos meios televisivos como nas redes sociais.

Nem sempre é deliberada, notou. Pode acontecer de forma acidental. Ainda assim, considera-a preocupante.

No ambiente digital, observou, a desinformação está diretamente relacionada com os algoritmos, enquanto as iniciativas destinadas a ensinar a reconhecê-la parecem ser cada vez menos.

Além disso, Pedro relatou que “estar no papel de jornalista” foi estranho. Entrevistar alguém, percebeu, não é simplesmente apontar um microfone. Há quem recuse, quem não queira ser gravado ou não queira falar.

O diretor de conteúdos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, João Tiago Gaspar, enquadrou a escolha do tema deste ano precisamente nas transformações do espaço mediático.

A democracia, explicou, sempre foi uma prioridade da Fundação, mas a crescente influência das redes sociais e dos meios digitais não tradicionais veio acrescentar uma nova dimensão ao sistema mediático.

Um “quinto poder”, que não se rege necessariamente pelos critérios ideológicos ou éticos do jornalismo. É nesse território que os jovens são convidados a navegar. 

Em Sintra, porém, a discussão acaba por regressar ao essencial: parar, ouvir e desconfiar.

*** Paulo Resendes (texto), Jorge Coutinho (vídeo) e Tiago Petinga (fotografia), da agência Lusa ***

 

 

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