Moscovo quer explicação da Arménia sobre convite a Zelensky

Moscovo, 10 mai 2026 (Lusa) – O Kremlin exigiu hoje uma explicação da Arménia pelo convite ao Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para a cimeira da Comunidade Política Europeia (CPE) realizada na passada segunda-feira em Erevan.

“Claro que estamos certamente à espera de algum tipo de explicação”, disse Dmitri Peskov, porta-voz presidencial, à televisão russa.

O Kremlin não considerou “nada normal” que Erevan tenha dado a Zelensky “uma plataforma para fazer declarações absolutamente anti-russas”, aludindo à frase de que a Rússia teme “que drones sobrevoem a Praça Vermelha” por ocasião do desfile da Vitória sobre a Alemanha Nazi, que teve lugar no sábado.

“É algo que não é muito normal e que não está de acordo com o espírito das relações com Erevan”, insistiu o porta-voz de Vladimir Putin.

A Rússia ameaçou a Ucrânia com um ataque de mísseis no centro de Kiev caso concretizasse as suas provocações a 9 de maio, levando os Estados Unidos a anunciarem uma trégua de três dias entre os dois países.

Peskov também criticou o facto de “se ouvirem declarações anti-russas na Arménia”, por Moscovo não ter ajudado Erevan durante os ataques do Azerbaijão, que em 2023 tomou o controlo da região de Nagorno-Karabakh, de onde mais de 100.000 arménios foram expulsos.

“É algo que não compreendemos. Porque é que o chefe do governo arménio não tenta equilibrar as suas declarações de alguma forma? É algo que não conseguimos explicar”, criticou.

Acrescentou que, para a Rússia, “o importante é que a Arménia não defenda posições anti-russas”, como aconteceu mais recentemente com outras ex-repúblicas soviéticas, como a Moldova.

As tensões entre os dois países atingiram o auge numa recente reunião no Kremlin na qual o primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, recordou ao Presidente russo, Vladimir Putin, que a Arménia “é um país democrático” que não aceita a pressão de Moscovo como no passado.

Antes das eleições legislativas de 7 de junho, às quais Pashinyan se recandidata, Putin pediu-lhe que permitisse a participação de forças “pró-russas”, mas o líder arménio respondeu que candidatos com dupla cidadania não podem concorrer às eleições do país caucasiano, como é o caso do empresário russo-arménio detido, Samvel Karapetian.

Neste sentido, Putin recordou numa conferência de imprensa no sábado que as aspirações da Ucrânia de reaproximação com a União Europeia (UE) levaram, em 2014, a uma revolução, à queda do presidente e ao confronto com a Rússia.

Por esta razão, salientou que é impossível combinar a adesão à UE e à União Económica Euroasiática (UEE), e que irá pedir para abordar os planos da Arménia na próxima cimeira.

Além disso, propôs que a Arménia realizasse um referendo sobre a adesão à UE para tomar uma decisão “o mais rapidamente possível” em respeito aos arménios e à Rússia, “seu principal parceiro comercial”.

Perante o resultado, Putin assegurou que Moscovo tomaria as decisões correspondentes e, em caso de saída da UEE, abriria caminho para “um divórcio mutuamente benéfico”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros arménio, Ararat Mirzoyan, respondeu hoje à imprensa local que Erevan escolherá entre os dois blocos “quando chegar a hora” e, embora “as aspirações europeias do povo arménio não sejam segredo”, o país continua a ser membro da UEE, liderada pela Rússia.

“Ninguém disse que vamos embora”, sublinhou.

A cimeira da CPE é um encontro que reúne duas vezes por ano dezenas de dirigentes de toda a Europa, à exceção da Rússia e da Bielorrússia.

No ano passado, a Arménia adotou uma lei declarando oficialmente a sua intenção de se candidatar à UE, na continuação de uma parceria estabelecida em 2017, mas as autoridades do país avançam, no entanto, com muita prudência.

Aliada da Rússia, nomeadamente por razões de segurança, a Arménia abriga uma base militar russa e continua a ser membro de alianças económicas e de segurança com Moscovo.

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