
Lisboa, 26 abr 2026 (Lusa) — A primeira vez que o jornalista sueco Henrik Jönsson ouviu a palavra saudade foi na voz de Cesária Évora, que o levou a vários continentes para descobrir o seu significado e como os lusófonos lidam com este sentimento.
O resultado desta jornada é o livro “Saudade — Cartografia de um sentimento” (editora Penguin), que Henrik Jönsson está a apresentar em Lisboa, a cidade onde há mais de 30 anos ouviu pela primeira vez a música “Sodade”, numa loja de discos no Rossio.
“Eu não sabia nada sobre essa palavra”, disse em entrevista à agência Lusa, acrescentando: “Essa música me tocou, porque na Suécia também temos muita melancolia nórdica, tipo [Ingmar] Bergman”.
A experiência levou-o a Cabo Verde nos anos 1990 do século, onde tomou a decisão de conhecer o Brasil, onde vive há 25 anos, sendo correspondente do Dagens Nyheter, o maior e mais influente jornal da Suécia.
Ainda sem dominar o português, e muito menos o crioulo cabo-verdiano, Henrik Jönsson acabou por sentir na canção que Cesária imortalizou uma tristeza, mas também uma alegria.
“Depois eu entendi que era sobre escravos, pessoas que tinham que sair de Cabo Verde para sobreviver, o que era bom. Mas mau porque eles não eram pagos, eram escravos”, disse, referindo-se ao tema da canção que fala da despedida de cabo-verdianos que iam para São Tomé e Príncipe trabalhar nas roças de cacau e café, sem que por isso fossem pagos.
A música é a raiz do livro e o começo de uma jornada à procura do que é a saudade e como os migrantes — como o autor — lidam com este sentimento.
E descobriu que as pessoas que têm mais saudades do mundo são as que vivem nas ilhas, daí ter acompanhado casos de açorianos, madeirenses e cabo-verdianos, numa espécie de Macaronésia da saudade.
Para a pesquisa, falou com açorianos e cabo-verdianos nos Estados Unidos e madeirenses na Venezuela, concluindo que todos os migrantes têm, em comum, a data de quando eles chegaram ao país que os acolheu.
Também identificou uma grande preocupação dos migrantes, sobretudo os que têm mais de 50 anos, com o lugar onde vão ser sepultados, encontrando vantagens e desvantagens no país de origem e no de destino.
Na Venezuela, por exemplo, encontrou madeirenses que querem ser sepultados nesse país na América do Sul, mas também quem já tenha decidido que vai ser enterrado na ilha de origem.
“Essa ideia de onde você é enterrado é uma coisa muito importante e demonstra o quanto eles estão ligados a ambos os países”, disse.
Henrik Jönsson concluiu que “a saudade não tem bandeira”.
“Um chinês pode ter saudade, um indiano. Não senti diferença entre o cabo-verdiano que encontrei em Brockton, Massachusetts, e o açoriano; era a mesma saudade”.
A forma como esta saudade é manifestada é que, na opinião do jornalista, pode ser diferente.
“Essa saudade que às vezes sinto no Rio de Janeiro, não significa que vou colocar uma camisa sueca, ou uma bandeira sueca. Para mim é mais fazer uma comida sueca, colocar uma música sueca. Mas os açorianos, não que eles sejam nacionalistas, eles adoram colocar a bandeira deles”, adiantou.
Por esta razão, o escritor tem dificuldades em entender como é que um país como Portugal tem tanta hostilidade em relação aos imigrantes, sobretudo quando estes ficam com os empregos menos qualificados.
Acredita que se trata de falta de memória e esquecimento da história.
“As pessoas ficam com raiva, principalmente quando são muçulmanos ou africanos, mas para os norte-americanos na Califórnia, os açorianos também eram muito estranhos” quando lá começaram a chegar.
“No começo, o americano não gostou dos açorianos, que eram muito católicos, a comer uma comida diferente, sopa de couve, com cada casa a ter couves”, disse.
E sublinhou: “Não é só o português. Na Suécia, há cem anos, um terço da população foi para os Estados Unidos para fugir da fome. E hoje a gente já tem racistas na Suécia. A memória é muito curta”.
*** Sandra Moutinho, da agência Lusa ***
SMM // VM
Lusa/Fim
