Moçambique quer apostar em cadeias produtivas contra concentração na extração

Maputo, 04 mar 2026 (Lusa) – O Governo moçambicano quer deixar políticas que concentram o crescimento na indústria extrativa, apostando nas cadeias produtivas, alegando as fragilidades estruturais da economia nacional, que ainda recupera de um ano de contração.

Num relatório do Ministério das Finanças sobre a execução orçamental de 2025, aponta-se “uma tendência de crescimento atual relativamente mais baixo” da economia, transmitindo a necessidade de “medidas económicas robustas e consistentes que galvanizem os principais setores produtivos”.

Essa leitura, acrescenta, “reforça a necessidade de uma orientação mais prudente e seletiva da política económica, capaz de enfrentar fragilidades estruturais e evitar a reprodução dos constrangimentos” detetados nos últimos anos.

“Devem ser desencorajadas políticas que aprofundem a concentração do crescimento em setores primários, sobretudo na indústria extrativa, sem o devido desenvolvimento de cadeias produtivas. Do mesmo modo, a expansão da despesa pública de natureza corrente, sem impacto direto na capacidade produtiva, bem como a dispersão do investimento público em projetos de reduzido efeito económico, mostrou-se insuficientes para travar a contração do PIB [Produto Interno Bruto]”, lê-se.

A economia moçambicana recuperou no último trimestre de 2025, invertendo quatro trimestres consecutivos de quebras, ao crescer 4,67%, mas fechou o ano com uma queda homóloga de 0,52%, anunciou na semana passada o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A economia moçambicana inverteu, ainda assim, um ano de quebras, desde os violentos protestos que se seguiram às eleições gerais de 09 de outubro de 2024, que provocaram em mais de cinco meses 400 mortos e destruição de empresas e infraestruturas públicas.

No terceiro trimestre de 2025, segundo o INE, o PIBpm (PIB a preços de mercado) recuou 0,85%, quando comparado ao mesmo período do ano 2024. Foram ainda registadas quedas no primeiro e segundo trimestres de 2025, respetivamente 3,92% e 0,94%, bem como no quarto trimestre de 2024, de 5,68%.

A economia moçambicana depende profundamente da extração de carvão e gás natural, que dominam largamente as exportações nacionais, conforme dados anteriores do banco central.

“Por outro lado, as políticas que comprometam a estabilidade macroeconómica, através de desequilíbrios fiscais, pressões inflacionistas ou instabilidade cambial, tendem a agravar o enfraquecimento da procura interna e a retração do investimento privado, como evidenciado pelo desempenho desfavorável de vários ramos do setor terciário em 2025”, refere o documento da execução orçamental de 2025.

Em sentido oposto, acrescenta, “os dados do balanço económico apontam para uma efetiva adequação das estratégias e políticas de modo a orientá-las para a recuperação da base produtiva”, com foco “na indústria transformadora, na energia, na construção, na agricultura e nos serviços logísticos, setores com forte efeito de arrastamento sobre a economia e cujo desempenho condicionou significativamente a evolução global da atividade económica”.

Aponta ainda que, no que toca ao investimento público, deve ser assumido “um caráter mais seletivo e produtivo, priorizando infraestruturas económicas críticas e intervenções com elevado efeito multiplicador, capazes de dinamizar o emprego e autoemprego jovem e estimular a produção interna”.

“Em paralelo, o reforço dos instrumentos de apoio ao setor privado, em particular às micro, pequenas e médias empresas, revela-se determinante para revitalizar o mercado interno, dinamizar o comércio, incluindo o informal”, conclui.

 

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