
Maputo, 03 abr 2026 (Lusa) – O Governo ruandês confirmou hoje que tem mais de 6.300 militares a combater o terrorismo no norte de Moçambique, três vezes mais face ao destacamento de 2021, reafirmando precisar de um “quadro de financiamento sustentável” para continuar.
“O Ruanda tem reiteradamente defendido que o destacamento a longo prazo das nossas forças de segurança em operações conjuntas de combate ao terrorismo em Moçambique exige um quadro de financiamento sustentável. Tendo até agora suportado a maior parte do encargo financeiro destas operações, uma transição para um financiamento mais equitativo é uma necessidade estratégica”, afirmou a porta-voz do Governo ruandês, Yolande Makolo.
Ao reagir, através da sua conta oficial na rede social X, a notícias em órgãos internacionais sobre as negociações entre o Ruanda e os Estados Unidos da América (EUA) e a União Europeia (UE), Makolo afirmou que cabe ao Governo moçambicano tratar desse financiamento.
“O Ruanda não solicitou e não solicitará fundos adicionais do Mecanismo Europeu para a Paz, isso é uma questão para Moçambique. O destacamento do Ruanda exige financiamento sustentável e cabe ao governo anfitrião e aos seus parceiros com grandes investimentos em Cabo Delgado providenciá-lo, como sempre foi. De resto, o Ruanda está satisfeito por ter podido contribuir, juntamente com os nossos aliados moçambicanos, para derrotar os terroristas, garantir a segurança dos residentes de Cabo Delgado e permitir a concretização dos investimentos”, acrescentou.
A posição surge quando se aproxima o fim do apoio financeiro da UE à operação, em maio, ao fim dos 36 meses previstos e de desembolsos de 40 milhões de euros, e numa altura em que os EUA — que financiam o megaprojeto de Gás Natural Liquefeito (GNL) liderado pela francesa TotalEnergies em Cabo Delgado — aplicaram sanções às Forças de Defesa do Ruanda (RDF), devido ao conflito na República Democrática do Congo.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, já tinha avisado em 14 de março que o destacamento ruandês que combate o terrorismo em Cabo Delgado vai sair do norte de Moçambique caso não haja garantias de “financiamento sustentável” à operação.
“Não se trata de o ‘Ruanda poder retirar’, mas sim de o ‘Ruanda retirará’ as suas tropas de Moçambique, caso não seja garantido financiamento sustentável para as suas operações antiterroristas em Cabo Delgado”, disse então o chefe da diplomacia ruandesa, numa mensagem na sua conta oficial na rede social X, que foi na altura a segunda posição oficial do Governo em menos de 24 horas, sobre o tema.
Na mensagem de hoje, Yolande Makolo acrescentou que, em Cabo Delgado, o “número atual de efetivos é superior a 6.300” militares ruandeses, o que é “significativamente superior aos 2.000 inicialmente destacados em 2021”, num aumento que surgiu em “resposta direta à expansão do âmbito das operações e à necessidade de preencher o vácuo de segurança” após a retirada da Missão dos países da África austral em Moçambique (SAMIM) em 2024.
“Os ataques do ISIS [Estado Islâmico] vitimaram principalmente civis moçambicanos, e estes foram os maiores beneficiários da missão conjunta de segurança, tendo regressado às suas casas e retomado as suas vidas. Os investimentos em gás beneficiam a segurança/interesses energéticos europeus e globais, não os de Ruanda — as forças ruandesas estão presentes em Cabo Delgado em resposta ao pedido de apoio do Governo de Moçambique”, disse Makolo.
O apoio às forças do Ruanda que combatem o terrorismo em Cabo Delgado termina em maio, não havendo negociações para a sua continuidade, disse em março fonte da delegação da UE em Moçambique, questionada pela Lusa.
Desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, rica em gás, enfrenta uma rebelião armada com ataques reclamados por movimentos associados ao grupo extremista Estado Islâmico que se estima terem provocado mais de 6.500 mortos.
Os militares do Ruanda colaboram nas operações de segurança das forças moçambicanas, sobretudo próximo ao megaprojeto de gás da TotalEnergies, cuja construção foi retomada em janeiro, quase cinco anos após a suspensão devido aos ataques terroristas, e com a petrolífera a enfatizar a importância dos acordos para a presença da força do Ruanda naquela área.
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