Maria Faria é bombeira e vai à Suíça ajudar a quebrar o “tabu” sobre pobreza menstrual

Matosinhos, Porto, 01 ago 2026 (Lusa) — Maria Faria nasceu em Barcelos há 25 anos e é bombeira em Leça do Balio (Matosinhos), após encontrar propósito em servir a comunidade, com uma tese sobre pobreza menstrual, tema que levará a uma conferência internacional de jovens líderes.

O mestrado em Filosofia, Política e Economia pela Universidade do Porto foi concluído com a tese “A Pobreza Menstrual na Universidade do Porto: incidência, fatores explicativos e estratégias de mitigação”, uma das causas da jovem que, de 09 a 15 de agosto, em Genebra, vai representar Portugal na AFS Yoush Assembly, que reúne “jovens líderes provenientes de cerca de 100 países”, em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Maria Faria vive em Matosinhos desde 2022 e é bombeira pronta há um ano, em Leça do Balio, um trabalho profissional que encontrou por sentir que não estava a “atingir o propósito” sem aproveitar o quão “conectada com as pessoas” se sente na vida.

“Na altura, surgiam as notícias relativamente à guerra da Ucrânia. (…) Estava a vir de metro para casa e vi um ‘story’ no Instagram de uns colegas bombeiros que tinham ido até à fronteira prestar ajuda humanitária. E eu pensei: ‘porque não? Se calhar, é por aqui que eu me vou sentir feliz'”, conta, em entrevista à Lusa.

Escolheu os bombeiros de Leça do Balio através da pesquisa numa aplicação de mapas, que apontou aquele quartel como o mais próximo de casa, e, mesmo sem ter familiares bombeiros, revela que, “desde os 16 anos, dizia que adorava ingressar nos voluntários, pela missão muito nobre”.

Hoje, é interessada em política e nos temas que ‘mexem’ com a vida das pessoas, tendo encontrado o tema da pobreza menstrual de serviço, quando respondeu a uma ocorrência com uma jovem de 16 anos, com dor abdominal, que usava um tampão há mais de 24 horas seguidas, quando o recomendado é trocar de quatro a seis horas.

“Existe uma grande desinformação a nível da saúde menstrual. (…) Existe um problema social, primeiro de educação, porque falta educação menstrual, uma certa desvalorização da própria saúde da mulher, e talvez da compra do produto menstrual em famílias em classes socioeconómicas mais baixas”, acrescenta.

Daí partiu para o estudo, no qual reuniu uma amostra de 411 estudantes da Universidade do Porto, dos quais 12,9% já faltaram a aulas ou outras atividades por falta de acesso a pensos ou tampões, enquanto 17,4% tiveram de recorrer “a alternativas inadequadas, como papel higiénico ou panos, por falta de recursos financeiros”.

Mais de metade das pessoas que menstruam que foram inquiridas (56,1%) revelam que a falta de acesso a estes produtos “afeta o seu bem-estar físico, emocional ou social”, o que mostra que a pobreza menstrual, diz, “não está só inserida nos contextos socioeconómicos em que as pessoas acham que está”, mas também como são necessárias mais políticas de educação especificamente sobre o tema.

“[É] uma falha gigante na educação do nosso país. Há uma disciplina no ensino básico e secundário. Porque é que em Cidadania, onde supostamente estes temas têm de ser falados, não são? Se formos questionar a maior parte das mulheres e pessoas que menstruam sobre como têm a informação de como tratar a menstruação, vão dizer: ‘foi a minha mãe, uma amiga, a minha avó’, ou seja, tem vindo de geração em geração ou em círculo social”, lamenta.

Porque “os problemas globais também começam nas comunidades locais”, também a pobreza menstrual “é um tema bastante tabu”, razão pela qual tenta alertar para ele e quer continuar a estudá-lo.

“É impensável que em 2026 ainda tenhamos de falar sobre a menstruação como se fosse tabu. Como é que estamos em 2026 e ainda temos de falar, alertar, sobre este tema, dizer que é natural. (…) Porque é que nós estamos a lutar por algo para ter direito a algo que nos é inato?”, questiona.

Associa esta causa à da visibilidade do trabalho dos bombeiros, seja quando está fardada e ao serviço seja no projeto Farda que Fala, do qual é coordenadora de comunicação, por ter saudades da área em que se licenciou: comunicação social.

No projeto, que grava reportagens e entrevistas com bombeiros e corporações pelo país, ganha visibilidade esta figura que existe para lá da época de incêndios, quando entra mais no ciclo mediático, e ajuda a combater uma realidade que identifica — sente que, “infelizmente, continuam a ser muito esquecidos”.

*** Simão Freitas (texto), André Sá (vídeo) e José Coelho (foto), da agência Lusa ***

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