Mais de 134.000 deslocados no nordeste da Síria após confrontos entre Exército e curdos – OIM

Damasco, 22 jan 2026 (Lusa) – Mais de 134 mil pessoas foram deslocadas no nordeste da Síria, estimou hoje a Organização Internacional para as Migrações (OIM), após confrontos entre o Exército e as forças curdas forçadas a abandonar os seus territórios.

Nos últimos três dias, o número de deslocados na província síria de Hasakah “aumentou para cerca de 134.803”, quando era de 5.725 no domingo, indicou a agência especializada da ONU para as migrações num comunicado.

Expulsas de Alepo no início de janeiro, após violentos combates, e posteriormente das províncias de Raqqa e Deir Ezzor na segunda-feira, as Forças Democráticas da Síria (FDS), braço armado da administração autónoma curda, recuaram para o coração da sua província natal, Hasakah.

O Presidente interino sírio, Ahmad al-Sharaa, concedeu na terça-feira aos curdos um cessar-fogo de quatro dias para apresentarem um plano de “integração pacífica” daquela província de maioria curda no Estado.

“As deslocações populacionais observadas durante este período refletem o medo de possíveis confrontos entre as FDS e as forças governamentais, em particular entre as pessoas que residem perto das prisões e quartéis-generais das FDS”, observou a OIM.

Segundo a organização intergovernamental, mais de 41.000 pessoas procuraram refúgio em abrigos coletivos na província de Hasakah e “precisam urgentemente de alimentos” e de outros bens essenciais, como colchões e cobertores.

Além disso, contabilizou 1.647 deslocados internos que procuraram refúgio na cidade curda de Kobani (Ain al-Arab, em árabe), situada na fronteira com a Turquia, na província de Alepo, onde os habitantes locais disseram não ter alimentos, água ou eletricidade há quase quatro dias.

Indicaram também que hoje começou a nevar e têm frio e que estão isolados, “cercados pelo inimigo” e longe da faixa mais a nordeste que se encontra nas mãos das FDS.

Kobani, no norte da Síria, foi o local da primeira vitória das forças curdas contra os ‘jihadistas’ do grupo Estado Islâmico (EI) na Síria, após meses de intensos combates de rua em 2015, que destruíram grande parte da cidade.

A seguir, foram necessários quatro anos para que as forças curdas, apoiadas pela coligação internacional anti-‘jihadista’ liderada pelos Estados Unidos, derrotassem o EI na Síria e acabassem com o seu “califado”.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, declarou na terça-feira o seu apoio a Al-Sharaa, um antigo ‘jihadista’, na ofensiva contra as forças curdas.

Segundo a comandante das Unidades de Proteção da Mulher (YPJ), Nesrin Abdullah, o que está em curso “é uma conspiração internacional contra todos os sírios, mas especialmente contra o povo curdo”.

Referia-se à campanha de ataques do Exército sírio contra as zonas de maioria curda, iniciada a 06 de janeiro e que no passado domingo, 18 de janeiro, conduziu a um frágil acordo de integração devido ao rápido avanço das forças governamentais.

Os Estados Unidos vinham há algum tempo pressionando as FSD para avançar na aplicação de um primeiro pacto assinado em março de 2025 e que nunca se concretizou, devido a divergências em diversas matérias, entre as quais a inclusão de membros da aliança liderada pelos curdos nas forças do Estado.

Abdullah afirmou que as partes concordaram integrá-los como um bloco e até enviaram uma lista de nomes com candidatos a comandantes, mas que a outra parte retirou o seu apoio a esta iniciativa sem aviso prévio.

Questionada sobre o futuro da sua formação, o ramo feminino das Unidades de Proteção Popular (YPG), sobre voltar a chegar a um entendimento para integrá-las num Exército e numa força policial sem unidades femininas, a responsável limitou-se a afirmar que irão trabalhar para que haja uma.

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