Líbano exige “retirada total” de forças israelitas – PM

Paris, 21 abr 2026 (Lusa) — O primeiro-ministro do Líbano exigiu hoje a “retirada total” das forças israelitas e o regresso de prisioneiros e deslocados, no âmbito das negociações com Israel, antes da reunião agendada para quinta-feira em Washington.

Numa conferência de imprensa conjunta em Paris com o Presidente francês, Emmanuel Macron, Nawaf Salam afirmou também que o seu país precisa de “500 milhões de euros para enfrentar a crise humanitária nos próximos seis meses”.

Por sua vez, Macron sustentou que Israel deve “desistir das suas ambições territoriais” no Líbano e que o movimento xiita libanês Hezbollah, aliado do Irão, deve ser desarmado “pelos próprios libaneses”.

O cessar-fogo de dez dias em vigor, que termina no próximo domingo, “deve ser prolongado para permitir o início de um verdadeiro processo de estabilização”, declarou Macron à comunicação social, depois de receber o chefe do Governo libanês no Palácio do Eliseu.

Defendeu um “acordo político entre Israel e o Líbano que garanta a segurança dos dois países, a integridade territorial do Líbano e estabeleça as bases para a normalização das relações bilaterais”.

“Acreditamos num desarmamento do Hezbollah pelas Forças Armadas libanesas”, seja pela força ou pela negociação, dependendo do “caminho escolhido” pelas autoridades de Beirute, afirmou.

“Enquanto houver uma força a ocupar ou a bombardear território libanês, isso enfraquecerá a capacidade de desarmar o Hezbollah a longo prazo”, alertou.

A estabilização exige que o Hezbollah “pare de atacar Israel e de tentar substituir o Estado no exercício das suas prerrogativas”, mas também “que Israel desista das suas ambições territoriais e entenda que a condição para a sua segurança é um Estado libanês forte, não uma política do caos”, insistiu.

Depois de os países da União Europeia (UE) não terem hoje conseguido aprovar a imposição de novas sanções a Israel, apesar dos apelos nesse sentido feitos por vários deles, incluindo Espanha, Emmanuel Macron adotou uma abordagem mais cautelosa.

Reconheceu ser uma “questão legítima” a possibilidade de suspender o acordo de associação entre a UE e Israel, se este último “prosseguir com esta política que vai contra a sua história”, nomeadamente no Líbano.

“Este não é o momento para nos precipitarmos num confronto, especialmente agora que Israel concordou com um cessar-fogo no Líbano e se empenhou em conversações”, afirmou o Presidente francês.

“Mas as coisas claramente não podem continuar como estavam há alguns anos”, acrescentou, instando as autoridades israelitas a comprometerem-se com “uma via de respeito pela soberania dos Estados vizinhos e de apaziguamento”.

Sobre o pedido de ajuda de Nawaf Salam para lidar com a crise humanitária no Líbano, o presidente francês comprometeu-se a reagendar uma conferência de apoio às Forças Armadas e às forças de segurança libanesas, inicialmente marcada para o início de março, para quando Beirute “considerar útil”.

Emmanuel Macron afirmou ainda que França está “pronta para manter o seu compromisso no terreno” após a partida da FINUL, a missão da ONU, prevista para o final do ano, “ao lado dos seus parceiros mais mobilizados, dentro de uma estrutura que será necessário definir em conjunto”.

Assinalando “com alegria e satisfação o interesse dos Estados Unidos da América pelo Líbano”, convidou-os a ajudar França a “negociar uma nova resolução” para renovar o mandato da FINUL no país ou definir “uma nova versão do mesmo”.

No fim de semana passado, um militar francês morreu e outros três ficaram feridos na sequência de um ataque ocorrido no sul do Líbano contra a Força Interina das Nações Unidas no país (FINUL).

Uma nova ronda de negociações entre os embaixadores do Líbano e de Israel, sob mediação norte-americana, está agendada para quinta-feira, em Washington.

Um acordo de cessar-fogo foi alcançado a 16 de abril entre o Líbano e Israel – em guerra desde 02 de março -, com a duração prevista de dez dias, durante os quais se espera que os dois países negoceiem um plano mais pormenorizado para alcançar uma paz duradoura.

A 02 de março, o Líbano foi arrastado para o conflito regional desencadeado a 28 de fevereiro por uma ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, quando o Hezbollah atacou com morteiros Israel, que a partir de então bombardeou intensamente o sul do país, primeiro com ataques aéreos e depois com uma ofensiva terrestre, com artilharia e blindados.

Apesar do cessar-fogo de duas semanas acordado a 07 de abril entre os Estados Unidos e o Irão, que, em princípio, devia aplicar-se a ambas as partes no conflito e respetivos aliados, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, declarou que este não abrangia o Líbano, e o seu Exército lançou horas depois a maior vaga de ataques aéreos sobre o país desde o início da guerra.

Em apenas dez minutos, Israel bombardeou 100 alvos em território libanês, fazendo pelo menos 254 mortos e 1.165 feridos, segundo a Defesa Civil libanesa, e prosseguiu desde então os ataques, inclusive depois da entrada em vigor da trégua de dez dias.

O conflito fez, até agora, no Líbano, mais de 2.000 mortos e milhares de feridos, e mais de um milhão de civis deslocados internamente, o que representa cerca de um quinto da população libanesa, na sequência de ordens de evacuação do sul do território emitidas pelo Exército israelita.

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