Justiça espanhola bloqueia contas de ex-primeiro-ministro Zapatero

Madrid, 21 mai 2026 (Lusa) – A justiça espanhola ordenou hoje o bloqueio de contas bancárias do ex-primeiro-ministo José Luis Rodriguez Zapatero, que está a ser investigado por tráfico de influências, disseram hoje fontes judiciais.

O bloqueio de contas visa um valor de cerca de 490.780 mil euros, relacionados com transferências de uma empresa investigada neste processo, segundo as mesmas fontes, citadas por vários meios de comunicação social.

A justiça espanhola revelou na terça-feira, num comunicado, que Zapatero, primeiro-ministro entre 2004 e 2011 e antigo líder do Partido Socialista Espanhol (PSOE), está ser investigado “por delitos de tráfico de influências e outros conexos” e que será ouvido por um juiz no dia 02 de junho.

A Audiência Nacional de Espanha disse ainda que em causa está um processo judicial “aberto para investigar o resgate da companhia aérea Plus Ultra”, em 2021.

Segundo o sumário do processo judicial, Zapatero é suspeito de liderar “uma estrutura estável e hierarquizada de tráfico de influências” com o fim de obter “benefícios económicos” através de “influências em instâncias públicas em favor de terceiros, principalmente, a Plus Ultra”.  

A investigação suspeita ainda da utilização de empresas e documentação simulada “para exercer influências ilícitas” e ocultar a origem e o destino de verbas, incluindo uma empresa de que são administradoras e sócias as filhas de Zapatero. 

A justiça suspeita que Zapatero e as duas filhas receberam 1,95 milhões de euros em comissões, de forma irregular, neste caso.    

José Luis Rodríguez Zapatero, de 65 anos, garantiu na terça-feira inocência e prometeu total colaboração com a justiça.

“Quero reafirmar que toda a minha atividade pública e privada sempre se desenvolveu com absoluto respeito pela legalidade”, disse Zapatero, num vídeo enviado aos meios de comunicação social.

Zapatero afirmou “com toda a contundência” que nunca fez “qualquer gestão” junto de um governo ou entidade pública, em Espanha ou noutro país, relacionado com o resgate da companhia aérea Plus Ultra.

A Plus Ultra, considerada de pequena dimensão, beneficiou em 2021 de um resgate financeiro de 53 milhões de euros, concedidos na modalidade de empréstimo pelo governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, que na altura criou um fundo de dez mil milhões de euros para resgatar empresas consideradas estratégicas que estavam com dificuldades por causa da covid-19.

O Governo espanhol manifestou logo na terça-feira tranquilidade e “respeito pela justiça”, mas sem esquecer “o princípio fundamental da presunção de inocência”, na investigação ao antigo primeiro-ministro e também em relação ao resgate da Plus Ultra.

A ministra porta-voz do Governo, Elma Saiz, realçou que os vários empréstimos concedidos a companhias aéreas durante a pandemia foram autorizados pela Comissão Europeia e validados pelo Tribunal de Contas espanhol e pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE).

Foram processos “absolutamente transparentes” e similares aos adotados por outros países europeus, acrescentou.

Pedro Sánchez manifestou na quarta-feira, num debate no parlamento espanhol, “total colaboração com a justiça, total respeito pela presunção de inocência e total apoio ao presidente [do Governo] Zapatero”.

Sánchez respondia ao Partido Popular (PP, direita), a maior força da oposição em Espanha, que considera que a investigação a Zapatero é “extremmente grave” e o atual primeiro-ministro deveria demitir-se ou ser derrubado com uma moção de censura, pelo que está a apelar (para já, sem êxito) aos partidos da geringonça que viabilizaram o Governo para lhe retirarem o apoio.

O líder do PP, Alberto Núnez Feijóo, considerou na quarta-feira que Zapatero só podia ter cometido os alegados crimes por que está ser investigado em colaboração com o conselho de ministros, onde foi aprovado o o resgate da Plus Ultra.

Zapatero foi um dos grandes apoiantes de Sánchez nas últimas eleições espanholas, em julho de 2023, e chegou a sr classificado pela imprensa como o “grande ativo eleitoral” atual do PSOE e um dos vencedores das legislativas daquele ano.

A investigação judicial a Zapatero soma-se a outras que envolvem outras pessoas próximas ou que foram próximas de Pedro Sánchez, como um antigo ministro, ex-dirigentes do PSOE ou o irmão e a mulher do primeiro-ministro, acusados ou investigados por corrupção ou tráfico de influências.

Numa mensagem aos dirigentes do PSOE na terça-feira, Sánchez reconheceu que estes são “momentos duros” para o partido, mas apelou à defesa de Zapatero.

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