Jovem português César Rafael surpreendido por receber Prémio Europeu de Composição

Berlim, 24 ago 2026 (Lusa) – O jovem compositor português César Rafael confessa ter sido “uma surpresa total” vencer o Prémio Europeu de Composição 2026, notícia que recebeu num telefonema que descreve como “um dos mais felizes” da sua vida.

A distinção foi atribuída pela obra “Saudades, só portugueses”, estreada mundialmente a 07 de agosto na Konzerthaus Berlin, pela Jovem Orquestra Portuguesa (JOP), no âmbito do festival Young Euro Classic. O prémio foi anunciado durante o concerto de encerramento do festival.

A obra surgiu a partir do tema levado pela JOP ao festival e proposto pelo maestro Pedro Carneiro.

A escolha da saudade aconteceu de imediato, também pela vontade de apresentar a um público internacional um conceito associado à cultura portuguesa.

“Achei que seria desafiante compor sobre um tema assim”, explicou o compositor, que procurou divulgar a saudade “na minha própria linguagem musical e da melhor forma que consigo, junto de um público a quem este conceito é desconhecido”.

O título da obra estabelece uma relação com Fernando Pessoa e com “Mensagem”. A composição acompanha a transformação do sentimento, desde a despedida até ao momento em que a saudade se aproxima da nostalgia.

“Tendo como pano de fundo a ‘Mensagem’ de Pessoa e a exaltação da era dos Descobrimentos, a música traduz a saudade de um tempo que, tal como Pessoa, o compositor nunca viveu”, explicou César Rafael, em declarações à agência Lusa.

A peça procura ainda olhar para quem fica em terra perante a partida de alguém para o desconhecido. É, segundo o compositor, “um olhar de empatia para com aqueles que, outrora, ficaram em terra a ver os seus partirem rumo ao desconhecido ‘por mares nunca de antes navegados'”.

Transformar a saudade em música foi um dos principais desafios da composição. César Rafael desenvolveu uma narrativa dramática para acompanhar a despedida e a transformação do sentimento, cruzando diferentes ambientes sonoros.

“Desde o início, apresenta-nos o mar como ambiente sonoro e vai explorando melodias que traduzem despedidas, as quais se transformam em revolta e desespero”, descreveu.

Ouvir a obra pela primeira vez na Konzerthaus Berlin foi, para César Rafael, “extraordinário”. A acústica da sala e a interpretação da JOP contribuíram para uma experiência que descreveu como simultaneamente assustadora e jubilosa.

“A JOP deu uma vida à peça de uma forma que nunca tinha imaginado”, sublinhou.

O concerto terminou com uma ovação de pé, perante uma sala cheia. Para o compositor, o momento representou “um sentimento de missão cumprida”, depois de meses de trabalho.

“Algo que tento ter sempre em mente no ato de composição é que a música será tocada para o público, desfrutada pelo público”, revelou, acrescentando que “ver a sala inteira de pé foi a prova viva de que esse cuidado valeu a pena.”

A distinção europeia surge depois de César Rafael ter vencido também o Concurso Jovem Compositor da JOP, na temporada 2025/26. O compositor considera que os dois reconhecimentos ajudam a validar um percurso desenvolvido numa área que enfrenta limitações em Portugal.

“É difícil em Portugal, por vezes, sentir-se validado nesta área”, admitiu, apontando para a dimensão reduzida da área da composição e para a escassez de oportunidades para ouvir e apresentar novas obras.

“Nem sempre temos a oportunidade de ouvir o nosso trabalho e podemos sentir-nos sozinhos e o nosso trabalho desconhecido”, acrescentou. Por isso, as duas distinções representam “uma grande força de motivação e de validação” da qualidade, do esforço e do trabalho que tem desenvolvido.

Nascido em Vila Real em 2001, César Rafael iniciou os estudos musicais no Conservatório Regional de Vila Real, em trompete, antes de desenvolver o interesse pela composição na ESPROARTE, em Mirandela. Em 2020, ingressou na Universidade de Évora, onde estudou composição com Christopher Bochmann, Hugo Ribeiro e Pedro Amaral. Concluiu o mestrado em Ensino de Música em 2025.

O próximo trabalho do compositor a ser apresentado será “The View from Halfway Down”, para saxofone solo e orquestra, interpretado por Mário Marques e pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob direção do maestro Pedro Amaral, em 25 de outubro, em Alcobaça.

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