
Chimoio, Moçambique, 13 abr 2026 (Lusa) — A ativista social moçambicana Graça Machel criticou hoje a recorrente contratação de empresas e especialistas estrangeiros em concursos públicos para construção de infraestruturas financiados por parceiros internacionais, questionando a exclusão de engenheiros nacionais dos grandes projetos.
Graça Machel falava em Chimoio, província de Manica, centro do país, durante a aula inaugural da Universidade Púnguè, subordinada ao lema “Juventude Constrói o Futuro, Formação e Patriotismo para o Desenvolvimento Sustentável Nacional”.
“[Por que razão] todos os concursos têm que ser ganhos por estrangeiros? São pagos, aqueles concursos são pagos pelo Banco Mundial. Mas aquele Banco Mundial não está a oferecer-nos o dinheiro. Ele está a emprestar. Nós vamos pagar”, questionou a ativista.
Segundo a primeira ministra da Educação de Moçambique (1975), e viúva do histórico ex-Presidente moçambicano Samora Machel (1933-1986), o país acaba por suportar duplos encargos ao contratar empresas externas para executar projetos financiados por empréstimos internacionais.
“Neste momento, nós pagamos estrangeiros para virem construir as estradas e pontes por nós, pagamos ao banco e pagamos aos estrangeiros. Mas quantos engenheiros nós temos? Engenheiros de diversas especialidades”, questionou.
Graça Machel defendeu que as universidades moçambicanas devem assumir um papel central na formação de quadros capazes de liderar projetos estruturantes no país.
“Quem constrói as nossas estradas em Moçambique? Quem constrói as nossas estradas e as nossas pontes? São os estrangeiros, não é?. Isso significa que esse saber fazer, saber transformar, significa que tem que produzir as elites que saem destas nossas universidades e desta, em particular, as elites que vão construir as nossas estradas, as nossas pontes, as nossas barragens, as nossas cidades, mas também que de facto nós não vamos continuar a passar fome como se fosse normal”, defendeu Graça Machel.
Acrescentou que o desenvolvimento nacional depende também da capacidade do país em utilizar o conhecimento científico para enfrentar desafios económicos e sociais, incluindo a segurança alimentar: “Os agrónomos, os veterinários e todos, para saberem criar um Moçambique, construir um Moçambique sem fome. Moçambique em que somos nós os construtores materiais do nosso próprio desenvolvimento”.
Na mesma cerimónia, alertou ainda para os desafios educacionais que afetam a juventude, apontando que “31% dos jovens são analfabetos, 25% não concluíram nenhum nível de ensino, apenas 18% vão além do ensino primário e 1,5% chegam ao ensino superior”.
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