
Maputo, 29 jul 2026 (Lusa) — O governador do Banco de Moçambique (BM), Rogério Zandamela, revelou hoje que teve segundos para decidir em 2016 salvar ou liquidar o Moza Banco, então participado pelo português Novo Banco, tomando uma decisão pessoal, por falta de legislação.
Falando aos jornalistas no final da reunião do Comité de PolÃtica Monetária (CPMO), realizada hoje em Maputo, e fazendo o balanço dos quase dez anos à frente do banco central, cujo último mandato termina em setembro, Zandamela apontou o “barulho” das intervenções no Nosso Banco e no Moza Banco, ambas em 2016, como as decisões mais difÃceis que teve no cargo: “Foram as grandes duas intervenções que tive que fazer. Foram difÃceis, em alguns casos, continuam ainda problemáticos”.
Recordou que acabara de regressar a Moçambique, após mais de três décadas ao serviço do Fundo Monetário Internacional (FMI), quando foi confrontado com problemas graves nos dois bancos.
“Não foram decisões fáceis. Mal conhecia o paÃs, acabava de chegar, um mês depois, e estavam na minha mesa decisões muito difÃceis e teve que se fazer o que teve que se fazer”, disse.
Sobre o Moza Banco, então participado (49%) pelo português Novo Banco, sucessor do Banco EspÃrito Santo (BES), Zandamela descreveu uma situação de emergência que obrigou a uma decisão imediata, sobre um banco sistémico.
“Eu tive menos de um, dois minutos para tomar essa decisão. Salvar ou liquidar. Foi assim, questão de segundos”, admitiu, reconhecendo que a instituição — que hoje se mantém entre os bancos quase sistémicos no paÃs – estava já em em situação de insolvência.
“O banco já estava morto, vamos falar a verdade. Tinha capitais próprios negativos, o que quer dizer que, de facto, já não existia”, disse Zandamela, explicando que, perante esse cenário, a solução prevista pelas regras então existentes seria o encerramento. Contudo, optou por uma intervenção extraordinária, devido ao risco sistémico da liquidação.
“Não vou esconder isso. Foi uma decisão pessoal, porque nas regras, nas normas, não tÃnhamos nem regras nem normas para lidar com essa situação difÃcil”, disse, admitindo: “Segundo as normas, estritamente falando, a minha decisão era relativamente simples: Era mandar fechar, naquele momento. Liquidar, vender os ativos, distribuir o que sobrou”.
Contudo, uma liquidação teria consequências profundas para o sistema financeiro e para a economia moçambicana. “Teria tido consequências sÃsmicas para o nosso sistema financeiro e para a nossa economia. Ia-nos retardar por vários anos”, reconheceu.
Foi nesse contexto, afirmou, que ordenou a intervenção, que descreve como “a maior” de sempre do BM, insistindo que o paÃs não possuÃa, então, instrumentos jurÃdicos preparados para uma situação daquela natureza.
A prioridade passou então por travar a saÃda acelerada de depósitos e restaurar a confiança dos clientes do Moza, relatou: “Primeiro ato era parar a hemorragia”.
Ainda assim, defendeu que a intervenção acabou por atingir os objetivos pretendidos.
“Mas tivemos a sorte, deu certo, conseguimos rapidamente estabilizar e depois o processo seguiu para aÔ.
Zandamela sublinhou também que os acionistas da altura — Moçambique Capitais e Novo Banco (ex-BES) “aplaudiram” a solução, apesar da crÃtica que deixou ao negócio anterior, alegando que o acionista estrangeiro financiou o acionista nacional para ser maiorirtário.
“Então, isso levantou complicações na sua gestão antes da intervenção, mas não tanto depois, porque o verdadeiro acionista maioritário, de capital, não levantou barulho. E nós fizemos esta operação, que é bom de saber isso, em estreita colaboração e coordenação com o banco central de Portugal (…), eu próprio telefonei ao governador Carlos Costa, coordenamos como Ãamos trabalhar sobre esta matéria. Eles tomaram conta bem, porque tinha uma legislação clara do acionista deles lá, por isso nunca fez barulho até hoje”.
“Porque lá, sabe o que aconteceu? Com todas as coisas que andaram a fazer, que não são diferentes das nossas, quase todos foram parar na cadeia, incluindo um antigo primeiro-ministro, natureza polÃtica. Agora cá, sabem o que aconteceu? Não preciso entrar nos detalhes”, concluiu.
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