Fundo Soberano de Moçambique abandonou depósitos e passou a investir em dívida soberana

Maputo, 18 ago 2026 (Lusa) – O Fundo Soberano de Moçambique (FSM) iniciou no segundo trimestre a implementação da estratégia de investimento de longo prazo, abandonando as aplicações exclusivamente em depósitos bancários e avançando para uma carteira assente em dívida soberana internacional.

De acordo com o Relatório Trimestral de Investimento do Banco de Moçambique, a que a Lusa teve hoje acesso, a transição ocorreu após a aprovação do Plano Diretor de Investimento pelo Ministério das Finanças, permitindo ao banco central, que gere o fundo desde dezembro, iniciar a alocação dos recursos em carteiras denominadas em dólares norte-americanos e euros.

No final de junho, o FSM apresentava um valor de mercado de 118,36 milhões de dólares (102,9 milhões de euros), encontrando-se repartido entre uma carteira denominada em moeda norte-americana, correspondente a 69,99% do total ou 82,84 milhões de dólares (72 milhões de euros), e uma carteira denominada em moeda do bloco europeu, equivalente a 30,01%, ou cerca de 35,52 milhões de dólares (30,9 milhões de euros).

No relatório refere-se que a carteira em dólares encontrava-se integralmente constituída, enquanto a carteira em euros permanecia em fase final de implementação à data de referência do relatório, processo concluído em 09 de julho.

A exposição geográfica dos investimentos encontrava-se predominantemente concentrada nos Estados Unidos, refletindo o peso da carteira denominada em dólares, enquanto a componente europeia estava distribuída por vários países da Zona Euro, incluindo Alemanha, Finlândia, Áustria, França e Países Baixos.

O Banco de Moçambique refere ainda que o fundo cumpriu os principais limites de risco definidos na política de investimento, mantendo uma qualidade média de crédito alinhada com os índices de referência e superior à classificação mínima exigida.

Na semana passada, a Lusa noticiou que o Plano Diretor de Investimento do FSM determina que 70% dos recursos sejam geridos com base no índice ICE BofA 0-5 Year US Treasury Index, composto por obrigações do Tesouro norte-americano, e 30% no índice ICE BofA 0-3 Year Euro Government Index, referente à dívida soberana da Zona Euro.

O documento estabelece que a gestão operacional dos recursos seja assegurada pelo Banco de Moçambique através de uma estratégia baseada na replicação dos índices de referência, admitindo apenas desvios limitados para otimizar o retorno ajustado ao risco.

Entre as restrições previstas, o plano proíbe investimentos em ativos emitidos por empresas moçambicanas ou correlacionados com a economia nacional, bem como aplicações com exposição ao setor do petróleo e gás, apesar de o fundo ser financiado por receitas provenientes da exploração de gás natural.

As orientações proíbem igualmente transações a descoberto e determinam que, pelo menos, 75% da carteira permaneça aplicada em obrigações governamentais incluídas nos índices de referência. Os restantes recursos podem ser investidos em instrumentos de baixo risco, incluindo Bilhetes do Tesouro, depósitos a prazo, certificados de depósito, papel comercial, obrigações soberanas, instrumentos emitidos por organizações multilaterais e determinadas obrigações bancárias garantidas.

O plano fixa ainda uma notação mínima de crédito de A- para os investimentos elegíveis e limita a exposição a um único emitente fora dos índices de referência a 10% da carteira.

Os custos operacionais de gestão dos investimentos estão estimados em 73 mil dólares (63 mil euros) em 2026 e 95 mil dólares (82 mil euros) em 2027, cobrindo plataformas financeiras, sistemas de informação, serviços de custódia e fornecedores dos índices de referência.

Criado pela Lei n.º 1/2024, o Fundo Soberano de Moçambique é financiado principalmente pelas receitas da exploração de gás natural e tem como objetivos apoiar o desenvolvimento económico e social, acumular poupanças para futuras gerações e contribuir para a estabilização do Orçamento do Estado.

A legislação aprovada pelo parlamento moçambicano determina que o FSM seja alimentado por 40% das receitas anuais da exploração de gás natural, prevendo o Governo que possam atingir cerca de seis mil milhões de dólares (5,2 mil milhões de euros) por ano na década de 2040.

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