“Fjord” do romeno Cristian Mungiu é Palma de Ouro do 79.º Festival de Cannes

Cannes, França, 23 mai 2026 (Lusa) – O filme “Fjord” (“Fiorde”), do realizador romeno Cristian Mungiu e protagonizado por Renate Reinsve e Sebastian Stan, venceu hoje a Palma de Ouro no 79.º Festival de Cannes.

O realizador recebeu a primeira Palma de Ouro em 2007, com “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”.

Em “Fjord”, inspirado em acontecimentos reais, o realizador situa a sua história na Noruega para confrontar as contradições de uma sociedade que defende a tolerância e a abertura ao outro, mas que pode excluir brutalmente aqueles que se desviam do caminho que lhes é traçado.

O filme conta a história de um casal romeno-norueguês, interpretado por Renate Reinsve e Sebastian Stan, uma família profundamente religiosa com cinco filhos, que se estabelece na Noruega, numa aldeia no final de um fiorde.

Fazem amizade com os vizinhos, mas quando os professores da escola das crianças descobrem hematomas no corpo de um dos filhos, a comunidade associa-os imediatamente à educação ultraconservadora e religiosa que recebem, e perdem a custódia da criança.

Mungiu afirmou que com este filme “correu um risco”: O de “levantar a voz” contra os perigos que estamos expostos como sociedade e dizer “coisas que as pessoas não se atrevem a dizer em público”.

“As sociedades de hoje estão fragmentadas e radicalizadas. Este filme é um compromisso contra todas as formas de fundamentalismo; é uma mensagem de tolerância, inclusão e empatia. São palavras maravilhosas que todos apreciamos, mas precisamos de as aplicar com mais frequência”, disse.

Acrescentou que o estado do mundo hoje “não é dos melhores” e que não se “orgulha” do que está a ser deixado aos mais novos.

Antes de “pedir às novas gerações que façam uma mudança”, o esforço “deve começar por nós”, enfatizou o cineasta.

Por sua vez, “Minotaur” [Minotauro], do realizador russo Andrey Zvyagintsev, que era considerado um dos favoritos, venceu o Grande Prémio do Júri.

O filme do cineasta russo retrata de forma contundente a corrupção sob a liderança de Vladimir Putin.

Andrey Zvyagintsev, no seu discurso de agradecimento, fez um apelo ao presidente russo Vladimir Putin para que pusesse fim à “carnificina” da guerra na Ucrânia.

“Milhões de pessoas de ambos os lados da linha da frente sonham apenas com uma coisa: que os massacres cessem”, disse o realizador, falando em russo com um intérprete a traduzir para francês. Andrey Zvyagintsev vive atualmente exilado em França.

Os espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo, por “La bola negra” [A bola negra], e o polaco Pavel Pawlikowski, por “Fatherland” [Pátria], venceram hoje, ex aequo, o prémio de melhor realizador no certament.

O filme “Fatherland” conta a história do regresso do escritor Thomas Mann à Alemanha após o seu exílio nos Estados Unidos durante o regime nazi.

O filme alemão “Das Geträumte Abenteur” (A Aventura Sonhada), de Valeska Grisebach, venceu o Prémio do Júri.

O Melhor Argumento foi atribuído a Emmanuel Marre, por “Notre Salut” [A nossa salvação].

As atrizes belga Virginie Efira e japonesa Tao Okamoto receberam o prémio de Melhor Atriz ex aequo [em conjunto] por “Soudain” [De Repente], realizado pelo cineasta japonês Ryusuke Hamaguchi.

Efira interpreta a diretora de um lar de idosos que procura humanizar a sua instituição e que se cruza com uma encenadora de teatro japonesa com cancro terminal, interpretada por Okamoto.

O prémio de Melhor Ator foi atribuído em ex aequo a Emmanuel Machia e Valentin Campagne, por “Coward” [Covarde], de Lukas Dhont, filme que retrata uma paixão secreta entre dois jovens soldados no meio do caos dos campos de batalha belgas da Primeira Guerra Mundial.

A Câmara de Ouro para Melhor Primeiro Filme foi para ‘Ben’Imana’, de Marie Clementine Dusabejambo.

O realizador argentino Federico Luis venceu a Palma de ouro para melhor curta-metragem com “Para los contenderes” [Para os oponentes], sobre o boxe infantil no México.

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