Figuras históricas dão vida ao primeiro baralho de cartas moçambicano para ensinar e recordar o passado

Maputo, 22 set 2025 (Lusa)- Entre o silêncio e o isolamento da pandemia da covid-19, o artista Lauro Munguambe criou o primeiro baralho de cartas ilustradas com figuras históricas e lugares de Moçambique, para entreter, ensinar e “trazer o esquecido”.

“A minha missão é trazer o esquecido para o presente porque algumas crianças nem sequer conhecem Ngungunhane [último imperador do Império de Gaza], então por que não trazer esta figura e mostrar às crianças de uma forma divertida para elas aprenderem algo? Então, é por aí”, diz o artista visual e ilustrador, em entrevista à Lusa, em Maputo.

Lauro Munguambe, de 32 anos, residente num dos bairros dos arredores da capital do país, criou o primeiro baralho de cartas moçambicano a que chamou Kaya, ou casa na língua bantu xi-changana, da região sul.

O artista decidiu criar o baralho moçambicano após ganhar inspiração quando jogava, com a família, cartas convencionais durante a pandemia da covid-19, em 2020. Seguiu-se um processo de pesquisa, que depois levou à primeira amostra do baralho.

No processo criativo, Lauro substituiu as imagens no baralho convencional e estampou ilustrações de nomes e figuras históricas de Moçambique, paisagens e recursos faunísticos, mantendo a essência da carta, que é a sua linguagem universal, com os seus respetivos símbolos.

“Estava em casa com a família a jogar as cartas convencionais e ali percebi que tinha ilustrações e fotografias de astros de Hollywood, imagens de futebol e tudo mais, então, com a minha visão criativa, acabei por retirar essas imagens e colocar algo nosso, que vai simbolizar Moçambique cada vez que a pessoa joga ou leva o baralho, acaba por perceber algo sobre Moçambique de uma forma divertida”, diz.

“Dentro deste baralho, dentro da casa que é o Kaya, contém história, cultura e tradição moçambicanas, mas continua a ser um baralho comum, com a linguagem universal”, acrescenta.

A primeira ilustração foi na carta de reis do naipe de espada, em que estampou a imagem de Ngungunhane, último imperador do Império de Gaza, que foi capturado e aprisionado por Mouzinho de Albuquerque, representando praticamente o fim da resistência contra a ocupação colonial portuguesa, em 1895.

“Tem lá Ngungunhane, tem Samora [Machel, primeiro Presidente de Moçambique independente], tem lá o Eduardo Mondlane [primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, Frelimo, partido no poder desde 1975] que fica como reis de [naipe de ouro], representando a riqueza”, diz o artista.

O baralho também homenageia o empoderamento feminino através da ilustração de Josina Machel, primeira esposa de Samora Machel, colocada na carta rainha do naipe de espadas.

Lauro ilustrou também a assinatura dos acordos de Lusaka, em 1974, com Portugal praticamente a entregar o poder a Moçambique, e a conquista da independência, em 1975. Ainda se encontram as ilustrações do leão e do elefante, representando a luta contra extinção desses animais e a conservação do meio ambiente.

“A minha ideia de colocar o elefante é mesmo para preservar a espécie, porque é uma carta grande, tem peso, tem riqueza e o elefante está lá, em vias de extinção. Os caçadores furtivos acabam por abater esta espécie por causa do marfim, por isso coloquei esta carta para que se possa prestar atenção à preservação da espécie”, conta o artista.

Com o baralho, Lauro Munguambe posiciona-se contra a exploração ilegal dos recursos e a devastação do meio ambiente e lembra o mundo folclórico que representa a infância com brincadeiras dos subúrbios de Maputo, além de fazer referência à dança Tufo ou à Ilha de Moçambique, norte do país.

As cartas fazem referência à dança xigubu, do sul de Moçambique, à timbila, instrumento musical reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como património da humanidade, e à agricultura praticada sobretudo por mulheres no sul do país.

“Tem o mundo folclórico que é a nossa infância, tem lá algumas brincadeiras que fazíamos antes de a ‘geração Z’ ter acabado por perder este poder que tínhamos de socializar quando éramos crianças. Jogar à neca [um jogo tradicional moçambicano], empurrar pneus, fazer carrinhos de ferros. Esta coisa de folclórico na infância, a ‘geração Z’ acaba por perder por causa das tecnologias”, explica Munguambe.

Com o baralho que agora começa a comercializar, o artista quer também ensinar e educar, sobretudo as crianças, a partir do entretenimento, fazendo com que tenham acesso à história de Moçambique e ganhem consciência ambiental para a preservação das espécies em risco de extinção.

Para facilitar a compreensão, o baralho tem um código de barras que leva a um ficheiro onde se apresenta detalhes das histórias e o conceito por detrás de cada carta, nas línguas portuguesa e inglesa.

Lauro diz à Lusa que o baralho já é solicitado no exterior, servindo como incentivo para atrair turistas ao país.

“Esta ideia de conectar família, conectar amizades, entretenimento com educação, essa mistura destas ideias acaba por ser muito bom para nós, porque não só a pessoa acaba por nos conhecer, mas na parte turística é bom. A pessoa conhece a história jogando cartas”, diz o ilustrador.

O artista está a preparar a segunda edição do Kaya, que prevê ilustrar com novas figuras da história de Moçambique, incluindo nomes importantes da resistência colonial no centro e norte de Moçambique, com o objetivo de dar às cartas uma identidade de um Moçambique unido.

*** Pretilério Matsinhe (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***

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