
Lisboa, 12 abr 2026 (Lusa) — Os fadistas Hélder e Pedro Moutinho propõem uma tertúlia em palco, em que abordam a interceção entre poesia e fado, no espetáculo “Os Poetas Convidados”, que vão apresentar no Porto, em junho, e em Lisboa, no mês seguinte.
“Estamos ali a conversar, falamos, o próprio cenário sugere uma tertúlia, temos uma mesa no centro, estamos sentados e ora se levanta um, ora se levanta outro para ir cantar; também cantamos lado a lado sentados na mesa. Vai ser uma tertúlia mas com dinâmica”, disse Hélder Moutinho à agência Lusa.
O espetáculo “Os Poetas Convidados” é apresentado, no dia 17 de junho, na Casa da Música, no Porto, e no dia 01 de julho, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, e conta com a participação dos músicos Ricardo Parreira e André Dias, na guitarra portuguesa, Pedro Soares, na viola, e Daniel Pinto, no baixo.
Questionado sobre os poetas a escolher, Pedro Moutinho afirmou que vão selecionar “desde os mais antigos, como Carlos Conde (1901-1981) e Ary dos Santos (1936-1984), aos mais recentes como João Monge, Manuela de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, Amélia Muge”, e tentar “fazer um encontro entre o passado e este presente”.
O projeto está ainda em fase de criação e Hélder Moutinho não excluiu a possibilidade de cantar algum poema de sua autoria, ou até de surgir um inédito de outro autor.
Além de fadista, Hélder Moutinho é também poeta, autor de fados como “Lisboa das Mil Janelas”, cantado por Maria Amélia Proença, e “Como se fosse uma Flor”, gravado por Joana Amendoeira.
Previsto está cantarem repertório um do outro, e fados cujos poemas são conhecidos dos repertórios de outros fadistas.
“Vai haver, certamente, a surpresa de nos ouvirem cantar um fado que o público não imaginaria na nossa voz”, disse Hélder Moutinho.
“A língua portuguesa é muito cantável, mesmo no Brasil, sempre foi uma língua muito cantável, e a poesia portuguesa, na minha opinião, é das mais completas no mundo e, no fado, tem sido uma procura e uma descoberta também, desde os poetas clássicos, que julgávamos que não podiam ser cantados”, argumentou Pedro Moutinho.
Os dois fadistas realçaram o fado como veículo privilegiado para a poesia portuguesa. “A poesia portuguesa tem as tónicas certas que o fado adota com facilidade”, disse Pedro Moutinho.
Hélder Moutinho, por seu turno, referiu o chamado “fado-canção”, cuja estrutura inclui um refrão, “e logo aqui [o fado] sai da poesia tradicional para um em que existem os tais refrãos, o que ampliou as escolhas poéticas, e a própria poesia tradicional, tanto pode estar na parte popular como na erudita”. “Pode haver uma quadra que é feita por um poeta erudito”, disse o também poeta.
“Pode ser poesia tradicional por causa da estrutura — as quadras, quintilhas, sextilhas, decassílabos –, mas o poeta pode ser erudito, Camões, por exemplo”, acrescentou.
Pedro Moutinho, por exemplo, gravou “Se Te Puder Dizer”, quadras de Fernando Pessoa (1888-1935) no seu álbum “O Fado em Nós” (2016).
Fernando Pessoa tem sido cantado por diferentes fadistas, entre eles, Mariza, Cristina Branco e Camané.
Os dois fadistas realçaram o papel de Amália Rodrigues (1920-1999), “que foi a primeira a cantar os poetas clássicos e os trouxe para o fado”.
Hélder e Pedro Moutinho são “oriundos de uma linhagem central da tradição fadista”, afirma a diretora do Museu do Fado, Sara Pereira, num texto sobre ambos.
Hélder Moutinho começou a cantar aos 23 anos, tendo-se dado a conhecer primeiramente como poeta, assinando as letras “Trago a Saudade Esquecida” e “Não Guardo Saudade à Vida”, que Mísia gravou.
O seu primeiro álbum, “Sete Fados e Alguns Cantos” surgiu em finais de 1999, com produção do músico José Campos e Sousa, ao qual se sucederam outros, até ao mais recente, “Os Dias da Liberdade”, saído no ano passado.
Pedro Moutinho, na opinião de Sara Pereira, é senhor de uma voz “límpida e transparente, capaz de se desdobrar em subtis variações melódicas dentro do mesmo fado, num respeito escrupuloso prelo texto”.
Pedro fez parte do Coro de Santo Amaro de Oeiras e do grupo infantojuvenil Ministars. Começou a cantar fado em meados da década de 1990 e gravou o primeiro álbum, “Primeiro Fado”, em 2003. Em 2008, o seu álbum “Encontro” valeu-lhe o Prémio Amália para o Melhor Álbum do Ano. O seu mais recente álbum, “Casa de Água”, data de finais de 2023.
NL // MAG
Lusa/Fim
