
Maputo, 05 jan 2026 (Lusa) – Uma exposição do artista brasileiro Josemar Blures, patente em Maputo, traça paralelos entre a periferia de Salvador e da capital moçambicana, revelando “coincidências históricas” na relação com o mar e indagações para o campo social e das artes.
“Sabemos nós que a nossa relação com o Brasil é uma relação que tem a ver com um processo, claro, doloroso, sem ainda uma exatidão para tratar dessa questão, que tem a ver com a escravatura”, disse à Lusa Rafael Musinho, académico e parte da equipa de curadoria da exposição “Do Morro ao Mar”, da autoria de Josemar Blures de Souza Dias, artista visual desde 2003, de Salvador, capital do estado brasileiro da Baía.
Segundo o curador, as obras em exposição na Fortaleza de Maputo, centro da capital, que contaram também com contribuições de Radí Conceição e Emanoel Saravá, artistas brasileiros, incluem fotografias, poemas-cartas e pequenos vestígios de natureza, mar e histórias da primeira capital do Brasil emolduradas em barro e cerâmica, coincidindo com a narrativa do nascimento da capital moçambicana.
“Esta geração como a [do] Josemar, da Radí e do Emanoel trata das questões mais internas do próprio Brasil, que tem a ver com o seu meio, com o seu território, as suas preocupações e acabou coincidindo também com o nosso espaço, que é a Fortaleza de Maputo, que tem também esta componente de ter sido um dos espaços, se não o espaço, que diretamente contribuiu para o nascimento e o crescimento da própria cidade”, explica o curador.
Entre as similaridades encontradas nas duas cidades, separadas por mais de sete mil quilómetros, Musinho aponta para a proximidade de ambas ao oceano.
Entre as obras distribuídas pela exposição, com as paredes decoradas com fotos, frases e algumas cartas, o académico reconhece que os artefactos são um “exemplo prático” de cooperação artística entre Brasil e Moçambique, abrindo espaço para se pensar no “morro” (periferia brasileira) como uma ilustração de alguns bairros de Maputo.
“A primeira mensagem é o facto de a exposição mais uma vez nos trazer essa questão da própria coincidência, mas também o próprio tema que é do morro, que poderíamos traduzir, por exemplo, aos nossos bairros Chamanculo e Mafalala, até ao mar. E acho que esta provocação também é muito interessante porque a questão de acessibilidade aos espaços, digamos, como a Fortaleza de Maputo, o museu, ainda carece de mais abertura”, refere Rafael Musinho.
Em entrevista à Lusa, a partir do Brasil, Josemar Blures explica que “Do Morro ao Mar” é uma metáfora de convívio, carregando uma “paisagem que é comum a todos” e trazendo questões até para a esfera de governação.
“O Presidente Lula esteve em Moçambique recentemente, estabelecendo ali um ato comemorativo com o Presidente moçambicano sobre os 50 anos de parceria diplomática entre Moçambique e Brasil. A exposição também acaba entrando dentro desse calendário festivo, ela acaba levantando essa necessidade de entender que os nossos governos precisam apoiar o campo das artes, eles precisam apoiar o campo da cultura, porque a cultura e a arte também são instrumentos de transformação social”, explica o artista.
Entre cidades em transformações globais, Josemar entende a exposição como um procedimento artístico de pesquisa para “recontar espaços do viver das pessoas do quotidiano”, que não estão nos livros, no nome das avenidas, dentro dos museus ou das marcas na história.
Daí que, para o artista, conhecer os artefactos da Fortaleza de Maputo foi um “ato glorioso”, que mudou a montagem da exposição e que permitiu entender que aquele espaço carrega uma história e um significado muito específico para o povo moçambicano.
“Aquele espaço precisa também, assim como os nossos aqui no Brasil, carregar outras leituras, carregar outras formas de entender a história, de que não há nesse contexto um estabelecimento de herói e de derrotado, mas de transformação”, afirma, acrescentando que a exposição não traz respostas, mas diálogo e indagações, seja para o campo das artes como para o campo social.
Com a exposição, o artista acredita num futuro com mais abertura para a cooperação e intercâmbio cultural e artístico entre os dois países, porque a arte é a dinâmica de bem viver.
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