
Maputo, 27 mai 2026 (Lusa) – Os cinco maiores bancos em Moçambique registaram uma queda agregada de 70,4% nos resultados líquidos de 2025, penalizados pela exposição à dívida pública moçambicana, após cortes de rating.
De acordo com dados compilados pela Lusa a partir dos relatórios e contas divulgados nos últimos dias pelos cinco maiores bancos, incluindo dois liderados por bancos portugueses, o setor bancário moçambicano totalizou lucros de 5.099 milhões de meticais (68,7 milhões de euros), sofrendo uma diminuição dos resultados líquidos de 12.131 milhões de meticais (163,5 milhões de euros) em termos absolutos.
O desempenho foi fortemente penalizado pela deterioração do risco soberano, reforço de imparidades associadas à dívida pública e contexto macroeconómico adverso, transversal às principais instituições, que sublinham os impactos de cortes no rating da dívida soberana em 2025.
Entre os cinco maiores bancos, o Banco Comercial e de Investimentos (BCI), o maior do sistema bancário moçambicano e liderado pela Caixa Geral de Depósitos, viu os lucros recuarem 40,3%, para 3.604 milhões de meticais (48,6 milhões de euros) em 2025.
No relatório, o banco confirma que o resultado foi “impactado por fatores não recorrentes, nomeadamente o reforço das imparidades para as exposições à dívida pública, em resposta ao agravamento do risco soberano”.
O Millennium BIM, liderado pelo português BCP – tal como o BCI um dos dois sistémicos do país (com mais de dois milhões de clientes) -, registou a queda mais acentuada, passando de 3.309 milhões de meticais (44,6 milhões de euros) em 2024 para apenas 201 milhões de meticais (2,7 milhões de euros).
O exercício de 2025, segundo o relatório e contas do Millennium BIM, implicou “o reconhecimento de imparidades adicionais associadas à dívida pública, com impactos relevantes na evolução dos resultados” do banco: Teve de constituir 5.900 milhões de meticais (79,5 milhões de euros) “em imparidades à divida pública” moçambicana.
O Standard Bank também apresentou uma redução nos resultados líquidos, positivos, de 26%, para 4.526 milhões de meticais (60,4 milhões de euros), “sobretudo” por “fatores macroeconómicos, tais como o elevado risco soberano, efeitos negativos da queda das taxas de juro, disponibilidade limitada de divisas e contração do crédito”.
Já o Absa Bank Moçambique, tal como o Standard Bank dominado pela banca sul-africana, registou uma quebra de 62,9% nos lucros de 2025, que recuaram para 687 milhões de meticais (9,1 milhões de euros), com a administração a apontar que o “agravamento da perceção de risco soberano” contribuiu para “um contexto de forte pressão sobre a atividade bancária, afetando a geração de receita e aumentando o custo do risco”.
O Moza Banco, o quinto maior do país e o único destes liderado por capitais moçambicanos, agravou também significativamente os resultados, negativos tal como em 2024. Os prejuízos do banco passaram de 103,8 milhões de meticais (1,4 milhões de euros) para 3.919 milhões de meticais (52,3 milhões de euros) em 2025, refletindo, segundo a administração, o reforço de imparidades e saneamento do balanço.
O Banco de Moçambique alertou que o “elevado” volume dos atrasados e endividamento público, nomeadamente dívida interna, que cresceu quase 250 milhões de euros desde dezembro, está a afetar o funcionamento do mercado financeiro e a liquidez bancária.
“O endividamento público e os atrasados da dívida interna e externa mantêm-se elevados, afetando o normal funcionamento do mercado financeiro e a liquidez bancária”, lê-se no comunicado divulgado após a reunião do Comité de Política Monetária (CPMO), na segunda-feira.
O ‘stock’ da dívida pública de Moçambique disparou 20% nos últimos cinco anos, fechando 2025 no equivalente a 72,23% do Produto Interno Bruto (PIB), em 1,090 biliões de meticais ou 17.065 milhões de dólares (14.668 milhões de euros), segundo dados da Conta Geral do Estado (CGE).
PVJ // APL
Lusa/Fim
