Europa tem de escolher se deixa “zonas cinzentas” para Rússia explorar – Líder do parlamento ucraniano

Lisboa, 09 mai 2026 (Lusa) — O presidente do parlamento ucraniano defende que o apoio europeu a Kiev seja “mais estratégico e não reativo” e desafia a Europa a escolher entre um “processo histórico de unificação” ou deixar “zonas cinzentas que a Rússia tentará explorar”.

A Ucrânia “não deve continuar a ser uma dessas zonas cinzentas, a Ucrânia é Europa, geográfica, histórica, mental e politicamente”, alertou Ruslan Stefanchuk, em entrevista por escrito à agência Lusa, após a sua visita na passada quarta-feira a Lisboa.

Para o político e jurista de 50 anos, “a Europa deve pensar como uma potência e agir como uma potência” e lembrar-se que a sua segurança “está a ser decidida na Ucrânia”, reforçando que a invasão russa, desde fevereiro de 2022, não atinge apenas o seu país e “está a atacar a ordem europeia, a democracia e o direito das nações a determinarem o seu próprio futuro”.

O presidente da Verkhovna Rada (parlamento) sustentou que “o apoio europeu deve manter-se estratégico e não reativo”, numa fase em que o apoio financeiro e militar a Kiev depende dos seus aliados europeus desde a mudança de política em Washington, na sequência do regresso em janeiro de 2025 do republicano Donald Trump à Casa Branca.

A Ucrânia precisa de “armas, defesas aéreas, pressão através de sanções, apoio financeiro, mecanismos de responsabilização e um caminho claro para a adesão à União Europeia [UE]”, apelou Stefanchuk, em resposta à análise da dinâmica do auxilio internacional às autoridades ucranianas, em que se destacaram declarações recentes do chanceler alemão, Friedrich Merz, sugerindo concessões territoriais de Kiev à Rússia a par da sua integração no bloco europeu.

“O apoio internacional à Ucrânia continua a ser mais amplo do que um único país e mais forte do que um único ciclo político”, comentou, admitindo porém que “é claro que qualquer mudança no panorama internacional é importante”, mas insistindo que “a Ucrânia não pede caridade à Europa, a Ucrânia está a defender a Europa”.

Ruslan Stefanchuk indicou que esta foi uma das principais mensagens que deixou na Conferência de Presidentes de Parlamentos da União Europeia, que decorreu no início da passada semana em Copenhaga, antes de a repetir na quarta-feira na Assembleia da República, em Lisboa, onde foi ovacionado pelos deputados portugueses, com a exceção do PCP que faltou a esta sessão solene.

Tal como no seu discurso no hemiciclo português, o presidente da Verkhovna Rada frisou, na entrevista à Lusa, que o processo de adesão à UE “deve ser baseado no mérito”, no qual Kiev “está a fazer o seu trabalho de casa em condições que nenhum outro país candidato enfrentou”, elencando mísseis, drones, alertas de ataques aéreos e bombardeamentos diários.

Kiev apresentou formalmente o pedido de adesão à UE em 28 de fevereiro de 2022, poucos dias depois do início da invasão russa. Tem estatuto de país candidato desde 23 de junho desse mesmo ano.

“Bloquear o caminho da Ucrânia por razões políticas não é apenas injusto para a Ucrânia. Enfraquece a própria Europa”, declarou, ao mesmo tempo que advertiu que a invasão russa não deve ser encarada apenas como um conflito regional no continente europeu, mas também como “um teste fundamental para a ordem internacional”.

Como exemplo, Ruslan Stefanchuk apontou que, se a Rússia puder beneficiar de “agressões, ocupação, chantagem nuclear, deportação de crianças e ataques contra civis”, a partir desse momento, “todos os outros agressores do mundo chegarão à mesma conclusão”.

Numa fase em que as negociações de paz promovidas pelos Estados Unidos com Kiev e Moscovo continuam sem avanços e foram praticamente paralisadas, desde 28 de fevereiro, pelo conflito na região no Médio Oriente, o político ucraniano reconheceu que qualquer grande crise internacional “afeta a atenção global, os recursos e o foco político”

A Rússia “compreende isso muito bem”, avaliou, e “tenta sempre explorar a instabilidade noutros lugares para reduzir a pressão sobre si mesma”, em alusão ao levantamento temporário das sanções dos Estados Unidos ao comércio de petróleo russo, como resposta à escalada de preços provocada pela nova guerra no Golfo, contribuindo para um alivio dos indicadores económicos de Moscovo, e do esforço de guerra do Kremlin, quando se aproximavam do vermelho.

“É claro que o fim de outros conflitos e a redução da instabilidade global ajudariam a restaurar a atenção sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Mas a resposta não pode ser simplesmente esperar que o mundo se acalme. As democracias precisam de ser capazes de responder a várias crises em simultâneo”, sustentou.

Nessa medida, Ruslan Stefanchuk replicou os apelos de Kiev no sentido de que “a pressão sobre a Rússia deverá continuar, independentemente de outros conflitos”, e as sanções “precisam de se tornar verdadeiramente insuportáveis para a máquina de guerra russa”.

Tal como a chamada “frota fantasma” russa, usada para contornar as restrições comerciais, “deve ser detida”, as receitas energéticas de Moscovo também têm de ser reduzidas e os ativos congelados dirigidos para a recuperação da Ucrânia: “A Rússia deve compreender que a agressão tem um preço”, sublinhou.

Sobre as relações com Portugal, o presidente do parlamento ucraniano voltou à mensagem que deixou na Assembleia da República de que os dois países “podem estar geograficamente distantes, mas estão hoje muito próximos em termos de valores” e na partilha do compromisso com a liberdade, a democracia, a dignidade humana, a soberania e “o direito de cada nação escolher o seu próprio futuro sem coação externa”.

Expressando gratidão pelo “apoio constante desde o início da invasão russa em grande escala”, ao nível político, militar, humanitário e financeiro, recordou que Portugal também “acolheu os ucranianos que fugiam das bombas e mísseis russos” e tem estado ao lado de Kiev na UE, nas instituições internacionais e na “luta pela justiça”.

No rescaldo da visita a Lisboa, indicou que a sua delegação se focou no aprofundamento da cooperação em matéria de defesa, incluindo tecnologias avançadas e projetos conjuntos neste setor, além do processo de integração europeia, a reconstrução da Ucrânia, o apoio à comunidade ucraniana e o maior envolvimento do mundo lusófono no apoio a Kiev.

Ruslan Stefanchuk assinalou ainda como “um grande valor” o aprofundamento da cooperação interparlamentar, em que foi assinado, durante a sua deslocação à capital portuguesa, um memorando sobre o papel dos parlamentos na preservação e promoção dos valores democráticos europeus, por responsáveis da Verkhovna Rada e da Assembleia da República.

Este instrumento, referiu, “cria uma base institucional mais sólida para a parceria parlamentar” dos dois países.

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