
Maputo, 14 nov 2025 (Lusa) – Empresários portugueses em Moçambique reconhecem abertura à retoma de investimentos num cenário de “confiança” com a retoma do megaprojeto de gás da TotalEnergies e pela saída da “lista cinzenta”, mas pedem acesso a divisas, necessárias à importação.
“Nós estamos sempre atentos ao nosso ambiente de negócios e claramente que estas duas grandes notícias que recentemente foram divulgadas vêm claramente contribuir para o início da confiança. Os mercados fazem-se com confiança, fazem-se com rigor e acho que o nosso país está neste momento a caminhar para essa consolidação da confiança”, disse à Lusa o presidente da Câmara de Comércio Portugal – Moçambique, João Figueiredo.
O empresário falava à margem da XX Conferência Anual do Setor Privado (CASP), que termina hoje, em Maputo, tendo destacado que a saída de Moçambique da “lista cinzenta” internacional, de países com problemas no combate ao branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo – que integrava desde 2022 -, e o levantamento da cláusula da “força maior” pela TotalEnergies no âmbito do megaprojeto de gás de 20 mil milhões de dólares (17,2 mil milhões de euros) ao fim de quatro anos devido aos ataques terroristas em Cabo Delgado, aumentam a confiança do investimento português no país.
“Ao sair estas duas novas notícias acho que é uma reviravolta no estado da nossa economia. Após as eleições tivemos muitas dificuldades, foram mais de mil empresas que encerraram, milhares de postos de trabalho que se perderam”, disse o responsável, sobre os impactos globais dos cinco meses de contestação pós-eleitoral em todo o país.
Ainda no quadro do ambiente de negócios, Figueiredo disse que as relações entre Moçambique e Portugal estão “bastante facilitadas”, após serem criadas facilidades de vistos, pedindo “reciprocidade” na facilitação dos investimentos de moçambicanos em Portugal.
“Vamos ter mais uma cimeira bilateral Portugal-Moçambique nos próximos dias 08 e 09 e ainda não existem muitos pormenores, mas estamos muito crentes que irá trazer bons frutos depois destas melhorias que o país teve (…) penso que aqui o nosso país tem condições ou mais condições para atrair o investimento estrangeiro”, disse Figueiredo.
O empresário pediu reforço da segurança para travar o crime, sobretudo o rapto de empresários, elogiando os esforços do Governo para travar este tipo de crime.
A falta de acesso a moeda estrangeira é, contudo, um problema que permanece e é transversal: “A questão das divisas é um problema sério (…) afeta a toda a economia do país e resolve-se de duas formas: ou começamos a produzir mais e exportamos mais, ou temos que ter capital de investimento estrangeiro para que possamos ter mais divisas disponíveis, mas a primeira parte é sempre melhor”.
Rita Genésio, da direção comercial da empresa portuguesa Casa do Alumínio, presente em Moçambique há 10 anos, empregando localmente 14 trabalhadores, elogiou na CASP o atual ambiente de negócios no país, reclamando, entretanto, dos danos das manifestações pós-eleitorais à economia.
“Este ano não foi propriamente fácil, foi um ano de adaptações devido ao que se sucedeu no ano anterior, ainda estamos a reformular toda a estrutura da empresa. No entanto, estamos confiantes que Moçambique vai dar a volta”, disse, referindo que neste período a empresa conseguiu encontrar soluções e avançar com o negócio.
“Estamos localizados na Matola, vivemos em zonas distintas da cidade separados da Matola, não foi fácil chegar ao local de trabalho, tivemos diversas situações em que os nossos cargos foram colocados em causa, mas conseguimos ultrapassar isso, não sofremos qualquer tipo de danos, mas sofremos danos a nível da venda, perda de vendas dos nossos clientes”, acrescentou, apontando para a redução de importações devido à crise, mas queixando-se igualmente da falta de acesso a divisas.
A empresa Casa de Alumínios pensa em expandir o seu negócio para outros pontos do país, num contexto em que agora está baseada no sul, mas quer ver Moçambique a apostar na produção local para dinamizar a economia.
“Moçambique vive de importações, mas achamos que existe muita coisa que pode ser feita localmente, mas para isso acontecer tem que haver investimento, mas as pessoas não estão a querer investir devido à instabilidade económica e social do país”, disse ainda, pedindo ao Governo para que financie iniciativas de produção local.
“A questão dos raptos, há 10 anos que estamos cá, há 10 anos que se fala disso, há 10 anos que isso acontece. Basicamente estamos a lidar”, disse.
Já o Banco Comercial de Investimentos (BCI), o maior do país e detido pela Caixa Geral de Depósitos, entende que o ambiente de negócios em Moçambique é “promissor”, apontando para as reformas que estão em curso em vários setores e que poderão gerar “grandes benefícios para a própria economia”.
“Existem aqui grandes perspetivas de um futuro melhor para a economia do país. Aliás, temos também aqui a grande novidade que é a saída de Moçambique da ‘lista cinzenta’, isto é mais um indicador positivo para que, de facto, haja condições para que a economia esteja a fluir e possa também trazer aqui grandes frutos para o país”, disse Eisler Castelo David, diretor de relações públicas do BCI.
Daí que o BCI pretenda continuar a apostar nos apoios às Micro, Pequenas e Médias Empresas, visando contribuir no crescimento económico.
“Acho que os constrangimentos [na economia moçambicana] estão todos associados à própria economia como um todo e nós, como banco que está a atuar neste mercado, não estamos aquém destes desafios, destes constrangimentos, que acredito que vamos ultrapassar, como bem disse, é promissor, vamos tentar criar condições para que a nossa economia volte a crescer, volte a pulsar sem qualquer tipo de constrangimento”, disse o responsável.
*** Pretilério Matsinhe e Viriato Simbine (texto) e Fernando Cumaio (vídeo), da agência Lusa ***
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