
Porto Covo, Sines, Setúbal, 19 jul 2026 (Lusa) — O músico Emilio Moret trouxe este sábado, ao Festival Músicas do Mundo, o seu novo trabalho, gravado em Cuba, onde, apesar de atualmente faltarem “muitas coisas”, as pessoas “não se deixam vencer”.
Aos 77 anos, Emilio Moret, nascido em Encrucijada e formado musicalmente em Havana, foi acolhido de forma entusiástica pelo público que encheu o Largo Marquês de Pombal, na aldeia alentejana de Porto Covo.
“Atualmente há falta de muitas coisas [em Cuba)”, reconhece, em entrevista à Lusa, antes do concerto, o artista da tradição ‘sonera’ e do bolero cubanos, que fez parte do histórico Septeto Habanero.
“Perante as dificuldades, há que crescer, se não se cresce, perece-se. E ninguém quer perecer, toda a gente quer seguir. Enquanto for possÃvel lutar, estarão lutando”, acredita.
Por isso, Emilio Moret diz que “foi fácil” gravar “Alma de Sonero” em Havana. “Todos os que participaram neste disco têm alma de ‘sonero'” e, para quem tem alma de ‘sonero’, é sempre fácil tocar música cubana.
Perante as necessidades do paÃs caribenho, afetado pela escassez de combustÃvel, devido ao bloqueio petrolÃfero dos Estados Unidos, que tem originado falhas de energia elétrica constantes, Emilio Moret afirma: “Ninguém gosta de viver assim com tantas dificuldades e tanta tristeza, mas as pessoas sobrevivem.”
“E se alguém não tem, outro partilha e, se não há água aqui, vão buscar a casa de um amigo, de um familiar e continuam e, com essas dificuldades, põem-se a jogar dominó e tomam um trago de rum, cantam e bailam, adiante”, descreve.
Acompanhado em palco por cinco músicos cubanos e que vivem em Cuba, Emilio Moret não se esquece da tradição, mas recusa ser um conservador.
“O mundo evolui, a música evolui e quem está a nascer agora tem ideias diferentes das que já vivemos”, relativiza, reconhecendo que a maioria da juventude “não gosta” do ‘son’ tradicional cubano.
“Há que estar de acordo com a época”, sintoniza o artista, que continua a carregar “o ‘son’ dentro” de si.
Há anos radicado em Lisboa, Emilio Moret sente-se bem acolhido em Portugal, paÃs de “gente muito nobre”, e não dá muita importância ao crescimento da narrativa contra os estrangeiros.
“Tive a sorte de fazer boas amizades em Portugal (…), [que são] como se fossem a minha famÃlia”, diz, agradecido, mantendo a ligação a Cuba.
“Vou e venho, vou e venho. Respiro um pouco de ar de Cuba, respiro ar de Portugal. Encontro a minha metade em Cuba, encontro a minha metade em Portugal”, explica.
A estreia de Emilio Moret no Festival Músicas do Mundo é um exemplo da tentativa de combinar artistas emergentes e consagrados na programação.
“Nós não vamos a correr atrás dos algoritmos, aquilo que nós fazemos é apresentar a melhor música, aquilo que nós entendemos como a melhor música que se faz”, vinca Carlos Seixas, o diretor artÃstico e de produção do FMM.
Além disso, nesta 26.ª edição, era importante ter Cuba. “A música cubana faz parte do património da humanidade (…) e eles [os cubanos] são tão calorosos e, ao mesmo tempo, tão alegres, que à s vezes até faz impressão como é que isso se consegue com aqueles condicionalismos que eles têm”, desabafa.
“Afinal, o mundo, mesmo com essas dificuldades, pode ser muito mais habitável e muito mais caloroso”, acredita.
Num balanço muito inicial, Carlos Seixas destaca a presença de “uma terceira geração de jovens, (…) entre os 14, 15, 16 anos, ou seja, adolescentes, se calhar filhos dos filhos dos primeiros fãs do festival”.
O FMM, “embora tenha já 26 edições, é um festival jovem”, assinala, realçando que a juventude se encontra com “o espÃrito (…) da descoberta de novas músicas, de artistas que muitas vezes são (…) secundarizados em relação à s grandes figuras desta indústria que é a música ao vivo”.
No FMM — que Carlos Seixas espera ver continuar a acontecer em Porto Covo, antes de rumar à cidade de Sines –, a música é “o centro da gravidade”.
A programação de hoje, que fecha a ronda em Porto Covo, foi entretanto adaptada à final do Mundial de Futebol: o jogo será transmitido para o Largo Marquês de Pombal e só depois se seguirão os dois concertos agendados, Momi Maiga (Senegal) e The Legendary Tigerman (Portugal).
*** Sofia Branco (texto) e Filipe Pedro (vÃdeo), da agência Lusa ***
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