Economistas dizem que salário médio só descola do mínimo com aumento de produtividade

Lisboa, 13 jun 2026 (Lusa) — O salário mínimo e o médio estão cada vez mais próximos, verificando-se um fenómeno de compressão salarial, que poderia ser evitado com um aumento da produtividade, consideram economistas ouvidos pela Lusa, que defendem políticas para estimular a atividade.

Segundo uma análise do Banco de Portugal (BdP) divulgada esta semana, o índice de Kaitz, que mede o rácio entre o salário mínimo e o salário mediano, subiu para 91% em 2025, o que compara com 87% em 2019.

Para o economista Pedro Braz Teixeira, o “pecado original” deste fenómeno foi o facto de o salário mínimo ter deixado de ser indexante para os apoios sociais, em 2007, sendo que o aumento deste valor deixou de ter um impacto tão elevado na despesa pública.

Desta forma, a partir de 2007, com a criação do Indexante de Apoios Sociais (IAS), os governos passaram a aceitar “aumentos muito significativos do salário”.

O economista defende que “é necessário que os aumentos do salário mínimo passem a estar mais alinhados com os aumentos de produtividade”, enquanto devem também existir “políticas de promoção da produtividade, que tem crescido muito pouco”.

“O aumento da produtividade é que permitiria aumentar o salário médio, evitando aquela compressão”, conclui.

Ricardo Amaro, da Oxford Economics, corrobora esta ideia, defendendo que a solução para a compressão salarial “terá de passar por tentar que os restantes salários da economia acompanhem essa tendência de subida”.

“Um mercado de trabalho com baixos níveis de desemprego, como o atual, ajuda nisso dado que a escassez aumenta o poder negocial dos trabalhadores”, sinaliza, mas “uma solução permanente terá de também passar por melhoria da produtividade, e também na atração de investimento estrangeiro de alta qualidade”.

Enquanto a subida nos níveis de escolaridade ajuda nesse tema, “a instabilidade e baixa competitividade fiscal, lentidão da justiça e burocracia excessiva são áreas que reduzem a nossa atratividade”, defende.

Já o economista Ricardo Ferraz salienta que os restantes salários não estão a crescer a um ritmo tão acelerado quanto o salário mínimo, realidade que “não é um exclusivo do setor privado, mas também se verifica no setor público”.

Ferraz considera que os decisores políticos “têm de ser proativos e estudar medidas que recompensem não apenas fatores como a produtividade (que sem dúvida é importante), mas também a formação académica e a experiência das pessoas”.

De acordo com a análise do BdP, a distribuição dos salários dos trabalhadores por conta de outrem no setor privado tem registado uma compressão, nomeadamente associada ao salário mínimo, que tem um “papel central” na formação dos ordenados.

Segundo estes dados, os aumentos salariais mais elevados ocorrem nos níveis inferiores associados ao salário mínimo, por via da atualização deste valor.

Em 2025, os trabalhadores no primeiro decil da distribuição salarial (junto do salário mínimo) registaram um crescimento médio do salário base superior a 8%, enquanto no último decil (ligeiramente inferior a 3.000 euros) esse crescimento foi próximo de 5%.

Isto leva a uma compressão da distribuição dos salários, ao mesmo tempo que provoca uma redução da desigualdade salarial, num contexto em que o salário mínimo desempenha um “papel central” na formação dos salários.

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