
Havana, 18 abr 2026 (Lusa) — As ruas de Havana, outrora repletas de turistas, são hoje o espelho do embargo petrolífero norte-americano a Cuba, sem trânsito e quase sem luz.
Robert, um norte-americano natural do Texas de férias em Havana, pediu desculpa, mas confessou à Lusa o embaraço: “Eu não sabia do embargo a Cuba até chegar aqui. Não vejo televisão, não acompanho as notícias. Quando senti que algo não estava bem, perguntei ao ChatGPT. Não fazia a mínima ideia”.
Para quem, como Robert, conhecia a realidade cubana antes do embargo petrolífero imposto pelo Presidente norte-americano no início deste ano, o ambiente nas ruas da capital cubana é estranho.
A crise energética que a ilha enfrenta desde 2024, devido à deterioração da rede elétrica, agravou-se com o embargo de Donald Trump, provocando apagões diários que chegam a durar 20 horas, pelo que há bairros onde à noite não se vê luz.
Em muitas zonas, é quase um regresso à pandemia da covid-19. Não há turistas nas ruas, muitos espaços comerciais estão fechados, são poucos os hotéis ainda em funcionamento e o lixo vai-se acumulando nas ruas devido à falta de combustível para os camiões de recolha.
As prateleiras das farmácias estão quase vazias e dezenas de pessoas aguardam a sua vez para poder comprar bens essenciais nos poucos supermercados da cidade.
Em frente ao Capitólio Nacional, sede do governo cubano até à Revolução de 1959 do antigo presidente Fidel Castro, o movimento é quase nulo. Os carros clássicos descapotáveis, outrora muito procurados pelos visitantes estrangeiros para fotografias ou passeios, estão todos parados, em fila.
Os guias turísticos chegam a não fazer um único passeio durante dias a fio, disse à Lusa o guia Christian Menendez, para quem a falta de turistas agrava uma economia familiar já há muito precária: “Todo o dinheiro que nós ganhamos é para a comida. O nosso salário por mês são 40 dólares [cerca de 34 euros]. É insustentável. Eu nunca fui a um restaurante com a minha família”.
Dados da Oficina Nacional de Estatística e Informação cubana indicam que o número de turistas internacionais caiu 30% nos primeiros meses do ano face ao mesmo período de 2025, ano em que o turismo já tinha registado os piores números desde 2002, excetuando a pandemia.
Em Varadero, uma das principais estâncias balneares de Cuba, a crise é ainda mais evidente. O proprietário de uma pousada local, que pediu o anonimato à Lusa, disse que a queda do turismo é de quase 90%.
Mas para este médico aposentado, a falta de turistas não é o pior problema que a ilha enfrenta, quando existe escassez de medicamentos, tanto para uso hospitalar como para venda em farmácias.
As pessoas procuram soluções em mercados ilegais, junto de pessoas que viajam para o estrangeiro e os trazem no regresso ou com familiares e amigos emigrados que os enviam do estrangeiro.
“Como médico, acredito que este é um dos impactos mais graves, pois pode colocar vidas em risco”, explicou.
O bloqueio dos combustíveis está a afetar toda a vida socioeconómica cubana, desde o transporte de pessoas e mercadorias à energia para atividades importantes como a indústria e serviços médicos.
No caminho desde Trinidad, depois de acordado o preço, o taxista pediu para fazer uma paragem em casa, para abastecer. Ao chegar, a mulher estava à espera em frente ao portão da garagem. Estacionou o carro e fechou a porta. Não convém que algum vizinho veja que tem combustível em garrafões comprados no mercado negro. Fotografias não são permitidas.
“Isto é desolador, não acredito que os cubanos ainda acreditem no comunismo, quando só vemos cada vez mais miséria em Cuba”, desabafou o motorista. Cada taxista regista-se numa aplicação e aguardar a vez para ter acesso a combustível, mas quando chega, só recebe 20 litros por mês.
Nas estradas entre províncias, há dezenas de pessoas nas bermas a pedir boleia. Algumas agitam notas para conseguirem transporte, mas são raros os carros que passam e quase não há autocarros.
Em Cuba, há de tudo, mas a preços muito elevados, fora do alcance da maior parte da população, disseram vários cubanos.
Uma professora, de 41 anos, que pediu para não ser identificada — como tantos outros, tem medo de expressar opiniões publicamente — deixou a docência porque os salários são muito baixos e dar aulas é muito difícil.
“Não há giz, apagadores, ou quadros; os móveis estão destruídos. Não há papel nem canetas disponíveis”, disse Carmen (nome fictício).
Em plena crise energética, o bloqueio está a impedir, não só a entrada de combustível, mas também de alimentos e outros bens, o que aumenta os preços. “Viver em Cuba é uma luta alegre de resiliência”, referiu a ativista Nina Bislom, de 39 anos.
Argentina de nascença e a trabalhar na área da gestão cultural e das artes performativas, escolheu Havana para viver há alguns anos. “A solidariedade e a união têm sido os fios condutores que me levaram a viver aqui. Sinto-me uma cubana nascida na Argentina, vivendo conscientemente este momento, aqui e agora, um dia de cada vez”.
Num país onde os médicos realizam cirurgias com a luz de lanternas de telemóvel, Nina escolheu acreditar que tudo se resolve: “Os cubanos inventam. Dão um jeito, desenrascam-se, resolvem problemas. Na maioria dos casos, esta atitude caracteriza-os. Em Cuba, o humanismo é a bandeira do bem-estar, cultivado com amor, paz e empatia dentro e fora de fronteiras”.
Mas há uma questão que para a ativista precisa de ser abordada “com urgência”, devido ao descontentamento social, que é a do poder de compra: “A queda dos salários, das prestações de reforma, das pensões, das ajudas estatais para crianças, pessoas com deficiência e muito mais”.
Muitos cubanos cresceram a acreditar no “sonho americano” ou no estatuto de primeiro mundo da Europa. Ouvem-se apelos à interferência ou à invasão estrangeira em nome do progresso e da liberdade.
Para a professora Carmen, os jovens são os que mais desejam a intervenção norte-americana na ilha, mas também são os mais ignorantes.
“Nem sequer conhecem a história de Cuba e tudo o que a revolução fez para tentar distribuir as coisas da forma mais equitativa possível. Pensam que, com o domínio americano, viverão na abundância. O que eu vejo é um país deteriorado e destruído, mergulhado na pobreza e no desespero”, disse.
Daniel (nome fictício), poeta e ativista social, referiu que os últimos meses foram a ponta do icebergue de décadas de bloqueio.
“O país já estava devastado em décadas por este mesmo bloqueio que vai apertando o nosso povo. (…) Fidel Castro sonhou com um mundo melhor e uma Cuba não assente no capital económico, mas agora há uma rutura e uma divisão na sociedade. Estou certo de que a maioria não admitiria a ingerência dos Estados Unidos em Cuba. Trazer a McDonalds, Chiclets, Coca-Cola é uma derrota para muitos”, considerou.
Para Christian Menendez, “os turistas conseguem fazer mais em Cuba do que os cubanos em 50 anos”. “Nós só sobrevivemos, não conhecemos mais do que a província onde vivemos”.
Tal como ele, Nina Bislom disse esperar que, com o fim do bloqueio, o país possa viver sem entraves.
“Que a bela Cuba possa respirar livre e soberanamente, com o seu povo alegre, cheio de sentido de pertença, e na companhia da grande pátria das nações irmãs, da amizade e da colaboração entre os povos. Imagino-a, vejo-a e sinto-a como a ilha paradisíaca que é um farol no meio de tanta escuridão”.
*** António Pedro Santos, da agência Lusa ***
APS // EJ
Lusa/Fim
