
Sintra, Lisboa, 02 abr 2026 (Lusa) — Cerca de 50 condutores de veículos de animação turística, entre jipes, ‘tuk-tuk’ e carros adaptados, protestaram hoje, em Sintra, contra as novas regras de estacionamento adotadas pelo município, em vigor desde quarta-feira.
Convocado pela Associação Nacional de Condutores de Animação Turística (ANCAT), o protesto começou com uma concentração num parque de estacionamento, seguindo-se uma marcha lenta pela vila de cerca de 30 jipes, ‘tuk-tuk’ e carros adaptados.
“Os agentes tiraram fotos às matrículas, ameaçaram com multas, intimidaram-nos”, relatou Inês Henriques, secretária-geral da ANCAT, acusando a polícia de desrespeitar o direito à manifestação, consagrado na Constituição, ao “fracionar a marcha permitindo a entrada de outras viaturas”.
“Estão a querer retirar os nossos direitos, que são as nossas paragens, para nós podermos trabalhar em condições condignas, perto dos monumentos e pontos de interesse turístico”, explicou Inês Henriques, contrapondo com o pedido para que os estacionamentos sejam colocados “em sítios estratégicos”, facilitando a atividade de animação turística.
As alterações, aprovadas pela Câmara Municipal de Sintra em 10 de março, acabaram com as zonas de estacionamento exclusivo destinadas aos veículos de animação turística de até nove lugares e com o regime associado de sinalização e condicionamento do estacionamento.
Em contrapartida, a empresa municipal responsável pelo estacionamento no concelho de Sintra (EMES), no distrito de Lisboa, compromete-se a disponibilizar aos operadores que atuam na vila, no âmbito do Registo Nacional dos Agentes de Animação Turística (RNAAT), avenças mensais de 100 euros, permitindo a utilização de todas as zonas de estacionamento de duração limitada e do parque de estacionamento João de Deus.
A ANCAT denuncia a contraproposta com o que considera ser a extorsão dos condutores de animação turística em relação aos demais comerciantes de Sintra.
“O preço que neste momento está patente no ‘site’ da EMES é 20 euros por ano para os comerciantes e a nós estão a querer cobrar 100 euros por mês”, apontou Inês Henriques.
Arménio Matias, condutor de ‘tuk-tuk’, acusou a Câmara Municipal de Sintra de o estar a “impedir de trabalhar” e de estar “a dar o trabalho todo à Scotturb [empresa de transporte urbano coletivo de Sintra, Cascais e Oeiras]”, cujo contrato “agora vai passar a ser gerido […] pela EMES e não pela Câmara Municipal”.
O condutor de ‘tuk-tuk’ disse ainda acreditar que há “algum objetivo escondido”, porque, a partir do momento em que a gestão do contrato mudou, começaram “a complicar a vida [desta atividade] diariamente”.
A trabalhar no turismo há uma década, Mariana Neves, condutora de ‘tuk-tuk’, recordou que a atividade tem sido “alvo de alguma forma de perseguição”
“Temos tudo legal, já compramos licença, já pagamos tudo aquilo que é suposto, todas as nossas obrigações são cumpridas, mas nós temos muito mais deveres do que direitos neste momento”, considerou.
“Tiraram-nos as poucas regalias que já tínhamos, de uma forma muito selecionada e controlada […], de um momento para o outro”, criticou, notando que “a balança [entre deveres e direitos] está completamente desproporcional”.
Além disso, o novo regulamento veio gerar “uma grande confusão”, alertou Arménio Matias.
“Retira-nos as zonas de parque e estacionamento, onde tínhamos a hipótese de poder trabalhar. Estão-nos a impedir de fazer angariação junto dos clientes, estão-nos a impedir de circular com carros vazios para o centro histórico ou para a serra. É sempre difícil, quando temos pessoas para ir buscar, temos que apresentar um documento em que fomos chamados pelo cliente para ir buscá-los”, detalhou.
“Prezo o meu cliente, prezo Sintra, amo Sintra, adoro a serra e gosto de explicar às pessoas, que é por isso que elas cá vêm, o que é Sintra e o que é que podem ver”, acrescentou.
A ANCAT já pediu nova reunião à autarquia de Sintra, que foi agendada para dia 15, mas Inês Henriques não está muito esperançosa: “[Já nos] foi dito em reunião ‘vocês ou pagam ou pagam. Ou pagam os 100 euros por mês ou então nós vamos andar na caça à multa'”, disse.
A ANCAT, que tem cerca de 500 sócios, também pediu à Câmara que adiasse a implementação das novas regras pelo menos até depois da Páscoa, antecipando “constrangimentos” durante este período de férias.
“Tivemos um inverno muito duro, com muito pouco trabalho, e a Páscoa era a garantia do sustento de muitas famílias, muitas famílias mesmo, e neste momento, quando vêm os turistas, é quando começam a tentar impedir-nos de trabalhar”, lamentou Arménio Matias.
“Ninguém vai ter sítio para estacionar, as pessoas vão ter atrasos nas entradas dos monumentos. Está a ser vedada a circulação, por exemplo, em Montserrate, nós não podemos lá ir, somos impedidos de visitar esse monumento ou de circular ou deixar lá as pessoas. Existem atrasos para aceder aos parques Sintra Monte da Lua e as pessoas têm que pagar uma taxa adicional por chegarem atrasadas”, relatou Inês Henriques.
Além disso, “os autocarros disponibilizados, o 434 e o 435, vão sempre sobrelotados”, acrescentou, criticando o facto de esses transportes públicos cobrarem tarifas turísticas.
Sobre o alegado impacto dos veículos de animação turística na vila, referido pela Câmara Municipal, Inês Henriques disse que “não é verdade” e que a circulação de ‘tuk-tuk’ “é residual”, ainda que desconheça quantos veículos estejam em atividade.
SBR (FAC) // VAM
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