
Lisboa, 04 out 2026 (Lusa) — O fundador da Casa do Brasil de Lisboa, Carlos Vianna, considera que as divisões políticas no país se sentem com a mesma intensidade na comunidade brasileira em Portugal, um sinal de que a polarização veio para ficar.
“Naturalmente, a emigração brasileira reflete a sociedade brasileira” e a “polarização vem de há muito tempo e infelizmente tem muita coisa de irracional”, afirmou à Lusa Carlos Vianna, no relvado entre a Reitoria da Universidade de Lisboa e as Faculdades de Letras e de Direito, onde milhares de brasileiros foram chamados a votar para a primeira volta das eleições gerais.
“Infelizmente no Brasil, com a exceção do PT [Partido dos Trabalhadores, de Lula da Silva], não há partidos políticos consolidados. Aqui as pessoas votam em listas partidárias, no Brasil, as pessoas votam em nomes para deputados estadual, vereadores e as legendas [siglas partidárias] contam pouco”, disse.
Por outro lado, “infelizmente, o Brasil aperfeiçoou o marketing eleitoral e exporta marqueteiros [profissionais do marketing político] e o candidato é um produto”, uma “estratégia que tem sido aprimorada”, privilegiando os nomes em vez das ideologias.
Além disso, referiu Carlos Vianna, “quase 85% dos deputados federais são candidatos à reeleição” e todos dispõem de uma verba própria, denominada emenda parlamentar, que lhes permite aplicar em projetos nas suas zonas e que são usados para “pagar favores” ou “promover a sua candidatura com dinheiros públicos”, numa “concorrência absolutamente desleal”.
No Brasil, “o poder do congresso federal é brutal e isso distorce a democracia e leva à judicialização da política”, acrescentou Carlos Vianna, considerando que a “crise do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é uma crise de judicialização”.
“Os juízes passaram a ser ‘players’ da política”. Em Portugal, os juízes do Tribunal Constitucional “atuam discretamente e ninguém sabe quem são”, mas no Brasil “são mais populares que clube de futebol”, lamentou.
Apesar de tudo, “olho com muita alegria para o dia de votação, porque a democracia, apesar das muitas mazelas da democracia brasileira, é um dia de afirmação da democracia”, salientou, recordando que tem aumentado muito o número de eleitores brasileiros em Portugal.
Na Casa do Brasil, “fizemos sempre campanha para as pessoas irem votar. Não importa quem é o seu candidato, votem em consciência e votem”.
“Este é um dia feliz e estou otimista”, concluiu Carlos Vianna.
Mais de 158 milhões de brasileiros são hoje chamados às urnas para as eleições gerais do país, em que se procura também eleger o próximo Presidente, num escrutínio altamente polarizado entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.
As eleições, cujo voto é obrigatório no Brasil, pretendem eleger governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais, além do próximo chefe de Estado.
O Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, procura a reeleição aos 80 anos e o seu quarto mandato, enquanto o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, tenta devolver o poder ao campo bolsonarista, quatro anos depois da derrota do pai contra o mesmo adversário que tenta agora derrotar, apesar de as sondagens apontarem para um empate técnico.
Em Lisboa estão inscritos cerca de 79.000 eleitores, no Porto são mais de 47.000 e em Faro perto de 9.000.
Lisboa é o maior ponto de votação de brasileiros no estrangeiro e Portugal é o segundo maior colégio eleitoral no estrangeiro, atrás dos Estados Unidos da América.
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