Cheias em Benguela travam comboio do minério e arrastam casas, pessoas e animais

Benguela, Angola, 13 abr 2026 (Lusa) — O local por onde há poucos dias circulavam os vagões do Lobito Atlantic Railway, transportando cargas de elevado valor, é hoje um cenário de destruição: pilares expostos, carris torcidos, árvores arrancadas e lama a perder de vista.

O resto foi arrastado pela enxurrada do último fim de semana na província angolana de Benguela, que levou casas, pessoas e também os animais da fazenda do “Ti Monteiro”, defronte à estação do Cavaco, o mesmo nome do rio que transbordou no domingo devido ao rompimento de um dique, semeando a morte e o caos.

No sábado, avistavam-se por ali zebras, avestruzes e até jacarés, mas resta agora o terreno lodoso que seca sob o sol intenso de Benguela, já sem casas no horizonte, enquanto os moradores tentam salvar alguns bens enlameados.

“Por volta das 08:00 [de domingo] houve uma corrente forte de água. Foi subindo minuto a minuto e, às 09:00, já estava tudo inundado”, conta à Lusa Belchior Tchipepe, morador no bairro do Capiandalo há mais de oito anos.

Segundo o residente, a subida repentina do caudal apanhou a população de surpresa: “Pensámos que era só água da chuva, mas de repente vimos que o rio subiu e as casas ficaram totalmente inundadas. Tivemos de fugir para zonas mais seguras”.

Apesar de a sua casa ter sido atingida, conseguiu refugiar-se na habitação de um vizinho.

“Era muita, mas muita água. Não conseguíamos perceber por onde saía”, descreveu, mostrando-se intrigado pelo facto de, naquele momento, não estar a chover na zona. “Aqui não caiu chuva. Só mais tarde percebemos que estava a chover do outro lado”, explica.

A força da corrente destruiu infraestruturas e alterou por completo a paisagem. A ponte rodoviária sobre o Cavaco, que liga vários pontos da cidade, ficou submersa, obrigando a interromper a circulação, enquanto a ponte ferroviária foi mais afetada pelo caudal obrigando à suspensão da circulação no Corredor do Lobito, infraestrutura ferroviária essencial para o transporte de minério a partir da Republica Democratica do Congo até ao Porto do Lobito, no sul de Angola.

“Por volta das 10:00, a água passou por cima da ponte. As autoridades interditaram a passagem”, conta.

Por essa hora já tinham desaparecido também casas e o parque zoológico que existia. “Aqui onde estamos era um parque, com animais. Havia zebras, avestruzes… tudo foi arrastado”, recorda Belchior.

Nos bairros vizinhos, como o Calomanga — apontado como um dos mais afetados —, repete-se o cenário de habitações destruídas, famílias desalojadas e perdas humanas e materiais ainda por contabilizar.

“Graças a Deus foi de manhã e muitas pessoas conseguiram fugir, mas algumas não chegaram a tempo e perderam a vida”, diz.

A Lobito Atlantic Railway (LAR), consórcio internacional responsável pela exploração da linha ferroviária que atravessa Angola ao longo de cerca de 1.300 quilómetros, mantém-se cautelosa quanto à dimensão dos estragos e não avança prazos para a retoma da operação.

Segundo fonte da empresa, “a prioridade centra-se na garantia da segurança das pessoas, na avaliação técnica dos danos e na reposição das condições operacionais, em articulação com as autoridades competentes”, estando a situação “em fase de avaliação”.

A circulação ferroviária foi suspensa por tempo indeterminado, após danos registados na via e constrangimentos nas pontes sobre os rios Halo e Cavaco, na província de Benguela, na sequência da precipitação intensa.

 

*** Raquel Rio (texto), Marcos Focosso (vídeo), Ampe Rogério (fotos), da agência Lusa ***

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