Ceuta: Milhares de pessoas ainda nas ruas do enclave espanhol dois meses depois

Madrid, 30 set 2026 (Lusa) – Ceuta viveu há dois meses uma entrada inédita de dezenas de milhares de pessoas em 24 horas, gerando uma crise migratória, social, económica e política na cidade autónoma e em Espanha que se mantém.

Estes são alguns pontos relativos ao ocorrido no enclave espanhol no norte de África, com fronteiras com Marrocos, em 30 e 31 de julho e a situação atual na cidade:

+++ Números da crise ainda por esclarecer +++

O número de pessoas que entrou ilegalmente em Ceuta no final de julho situou-se entre 72.000 e 90.000, segundo diversas autoridades.

O número oficial mais recente do Governo espanhol são 72.000 pessoas, enquanto o executivo da cidade autónoma refere entre 80.000 ou 90.000.

Vivem em Ceuta, uma cidade com menos de 20 quilómetros quadrados, cerca de 83.000 pessoas.

Dezenas de milhares de pessoas saíram quase de imediato de Ceuta, nas horas e dias seguintes, mas pelo menos 10.000 adultos e 2.400 menores de idade não acompanhados ficaram na cidade, segundo dados e estimativas oficiais.

Até agora, foram alojados temporariamente e referenciados, para dar início a processos de repatriamento ou de concessão de asilo, cerca de 6.000 adultos e 2.493 menores de idade não acompanhados, segundo dados divulgados na terça-feira pelo Governo espanhol.

O executivo estima que permaneçam entre 3.000 e 3.500 pessoas nas ruas, como as que estão acampadas em praias da cidade, à espera de haver vagas nos centros de acolhimento ou de serem criados mais lugares.

Por outro lado, o Governo diz que continuam a sair de Ceuta voluntariamente migrantes todos os dias. Segundo o executivo, 7.794 pessoas saíram da cidade de forma voluntária desde 10 de agosto.

Além disso, 449 adultos foram expulsos por delitos, 69 menores de idade foram reagrupados com familiares que já viviam em Espanha e outros 144 menores foram enviados para centros de acolhimento noutras regiões do país.

O Governo espera ter a situação estabilizada em Ceuta até ao final do ano e que em breve comecem a ser emitidas as primeiras ordens de repatriamento, essencialmente, para Marrocos, cumprindo os protocolos estabelecidos no Pacto Europeu de Migração e Asilo, que entrou em vigor em junho. A expectativa do executivo é que a larga maioria dos adultos seja repatriada.

+++ “Plano de choque” de 309 ME para responder à crise +++

O Governo espanhol aprovou no início do ano um “plano de choque” para Ceuta de 309 milhões de euros, a executar até ao final do ano, para responder à crise migratória e humanitária na cidade e ao impacto na economia da entrada ilegal de dezenas de milhares de pessoas.

Foram destinados 90 milhões de euros ao reforço da segurança na cidade, com mais meios humanos, nomeadamente ao nível de operacionais da polícia e das Forças Armadas, assim como 118 milhões de euros para responder às necessidades extraordinárias de acolhimento e humanitárias de milhares de migrantes.

Há ainda verbas para “o reforço de serviços essenciais” (como saúde, educação ou justiça) e 80 milhões de euros para apoio a empresas e trabalhadores, entre ajudas diretas e outras, com o Governo a destacar o impacto em setores como o turismo ou o pequeno comércio de Ceuta, em que houve quebras de atividade no último mês na cidade de entre 30% e 60%, conforme os setores.

Segundo o executivo regional “Ceuta parou de repente em 31 de julho”: nestes dois meses a entrada de turistas caiu 50% e foram canceladas todas as 11 escalas de cruzeiros previstas para o verão, assim como eventos desportivos nacionais e internacionais, festivais e festividades.

+++ Manifestações, tensões e violência crescentes +++

As manifestações em Ceuta têm-se sucedido e crescido nos últimos dois meses, com a população a reivindicar a recuperação da normalidade e de espaços públicos como as praias onde se instalaram milhares de migrantes, o repatriamento imediato de quem entrou ilegalmente na cidade ou a tentar impedir a instalação de locais de acolhimento.

Nestes dois meses houve também episódios de violência contra os acampamentos de migrantes, com incêndios das tendas onde dormem ou contra elementos de organizações não-governamentais (ONG) que dão apoio a quem está na rua.

Há, por outro lado, denúncias por parte de ONG e jornalistas de violência contra as pessoas que estão nas ruas por militares e, em paralelo, 30 migrantes foram detidos por agressões às Forças Armadas.

As tensões e violência têm crescido igualmente entre migrantes que estão há dois meses nas ruas, com o Ministério Público a as ONG a realçarem em especial os 39 casos de violência sexual denunciados até agora.

As manifestações têm-se alastrado ao resto de Espanha, em protestos convocados em solidariedade com a população de Ceuta que se têm transformado, na maioria, em críticas ao Governo espanhol e ao primeiro-ministro, Pedro Sánchez, acusados de subserviência a Marrocos e de lentidão e incapacidade na resposta à crise gerada no terreno.

Os maiores protestos ocorreram em 02 de setembro, Dia de Ceuta, quando dezenas de milhares de pessoas se manifestaram em dezenas de cidades do país, e no sábado passado, quando em Madrid um protesto que contou com o apoio do Partido Popular (PP, direita) e do Vox (extrema-direita) mobilizou 180.000 pessoas, segundo os organizadores, e 20.000, segundo as autoridades.

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