
Madrid, 09 abr 2026 (Lusa)- Cerca de 33,7 milhões de pessoas necessitam de ajuda urgente para sobreviver no Sudão, após três anos de guerra, alertou hoje a Organização Não-Governamental (ONG) espanhola Ação Contra a Fome (Acción Contra el Hambre).
A poucos dias do terceiro aniversário do início da guerra, considerada a “maior crise humanitária do momento”, aproximadamente dois terços da população sudanesa necessita de ajuda humanitária urgente, destacou numa videoconferência Manuel Sánchez Montero, diretor-geral da Ação contra a Fome.
Além disso, salientou que “o Sudão não é apenas a maior crise humanitária do momento, mas uma das maiores dos últimos 50 anos”.
Mais de 24 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar aguda e, no entanto, o plano de resposta à fome conta apenas com 16% do financiamento necessário, segundo indicaram os especialistas da ONG.
“A fome não é um termo genérico que deva ser usado de ânimo leve, mas representa a classificação mais extrema de insegurança alimentar”, afirmou Paloma Martín, diretora de operações da ONG em África.
Sánchez Montero acrescentou que duas zonas do Sudão já foram declaradas em estado de fome, o que significa que nesses locais já se cumprem os três critérios: mortalidade, desnutrição e falta de alimentos.
Além disso, alertou que o país se encontra num “círculo vicioso entre o conflito que causa fome e a fome que é utilizada como arma de guerra”.
“Antes da guerra, 80 % da população do Sudão vivia da agricultura”, salientou Martín; agora, a população enfrenta graves problemas de liquidez e as consequências da hiperinflação, que afetam diretamente o acesso aos alimentos básicos.
Além disso, este cenário é agravado pelo colapso do sistema de saúde, com entre 70% e 80% dos centros de saúde inoperacionais nas zonas de conflito, o que impede a vacinação e partos seguros, segundo os especialistas.
Por sua vez, Samy Guessabi, diretor da organização no Sudão, apresentou números alarmantes sobre o impacto na infância: “estima-se que mais de 500.000 crianças possam morrer de desnutrição no Sudão”.
Os trabalhadores humanitários também se tornaram alvo da violência, afirmou Luis Eguiluz, especialista em segurança global, que informou que, “desde o início da guerra, já foram assassinados 100 trabalhadores humanitários, principalmente sudaneses”.
Para além da “violência direta e do uso de drones ou atiradores furtivos”, as equipas enfrentam barreiras administrativas, infraestruturas destruídas e condições climáticas adversas, como inundações recorrentes.
A situação no Sudão tem sido descrita como uma “policrise”, em que a violência de género constitui um dos aspetos mais alarmantes da emergência humanitária.
“Estamos a falar de mais de 12 milhões de mulheres e raparigas em risco de sofrer violência”, denunciou Guessabi.
A guerra entre o Exército do Sudão e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), iniciada a 15 de abril de 2023, mergulhou o país na pior catástrofe humanitária do planeta, segundo a ONU, e, de acordo com estimativas dos Estados Unidos, cerca de 400.000 pessoas podem ter perdido a vida durante o conflito.
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