
Uma emigrante açoriana celebrou, no Canadá, ao lado dos filhos, netos e bisnetos o seu centenário. A festa comemorou a vida da matriarca, marcada por dificuldades e superações. Maria Isaltina chegou ao Canadá, com os três filhos no dia 13 de novembro de 1966, em busca de uma vida melhor e de oportunidades que lhes permitissem escapar das adversidades da guerra colonial portuguesa.
Aos 43 anos, Maria Isaltina desembarcou no país deixando para trás uma vida simples nas ilhas dos Açores. Fátima, a filha mais velha, tinha 16 anos. João Aguiar, o filho do meio, 15 anos. O mais novo, José, tinha apenas 7 anos.
A decisão de emigrar para o Canadá foi motivada pelo temor de que seu filho do meio, João Aguiar, pudesse ser convocado para lutar na guerra colonial portuguesa.
O marido de Maria, João Amaral, veio seis meses antes para Toronto para preparar a chegada da família. Arranjou um emprego na linha férrea e conseguiu uma casa para a família morar. Ao saírem de São Vicente Ferreira em Ponta Delgada, Maria Isaltina e os seus filhos depararam-se com um país completamente novo, repleto de desafios e oportunidades. Vindos de um lugar onde, nem mesmo a energia elétrica era uma realidade cotidiana, a família teve que se adaptar rapidamente a um lugar diferente, com uma língua e costumes diferentes, enfrentando as dificuldades iniciais com coragem e determinação.
O filho mais novo lembra-se de quando viu uma escada rolante pela primeira vez já no aeroporto.
“Nós vínhamos de uma vila muito pobre e humilde. Quando chegamos ao Canadá, vimos pela primeira vez na vida uma escada rolante. Eu e o meu irmão do meio ficamos a brincar com elas no aeroporto. Era mágico, íamos para cima e para baixo”, contou José.
Assim que chegaram a Toronto, os filhos mais velhos prontamente encontraram empregos, ajudando assim a sustentar a família. O mais jovem foi matriculado na escola, enquanto Maria assumia o papel de provedora e educadora, transmitindo aos seus filhos os valores de amor, responsabilidade financeira e administração do lar
José, lembra que nos momentos de dificuldade a mãe lhe ensinava o valor das coisas. Em uma ida ao supermercado, o filho escondeu um pacote de biscoito no carrinho de compras. Ao perceber o que a criança tinha feito, calmamente disse-lhe: “Filho, hoje estamos a comprar apenas o essencial. Biscoitos não são uma necessidade”. José guarda consigo, até hoje, as lições de vida da sua mãe.
João Aguiar, filho do meio, lembra com carinho o que escutou dos pais assim que chegou ao país. “meus pais me disseram, ‘agora somos livres’, e fomos crescendo, e a família foi crescendo, mas sempre juntos, sem nunca nos separarmos”.
Maria Isaltina sempre acreditou que chegaria aos cem anos de idade, embora poucos compartilhassem dessa mesma convicção. No entanto, a sua força de vontade e espírito resiliente acompanharam-na ao longo dos anos, enfrentando desafios e construindo uma vida digna para sua família. Para surpresa de muitos, incluindo os seus filhos, netos e bisnetos, Maria Isaltina celebrou o seu centésimo aniversário na presença de toda a família.
Fátima, a filha mais velha, alegra-se em poder celebrar a vida da mãe.
“Sinto-me muito feliz de ela poder chegar aos cem anos, ela sempre disse que chegaria aos cem anos, eu nunca acreditei, mas ela chegou. Sinto-me muito feliz, especialmente com a família toda aqui.”
Os votos de felicidade não vieram apenas da família de Isaltina. O Primeiro Ministro do Canadá, Justin Trudeau, e o Rei Carlos III enviaram cartas parabenizando a centenária pelos seus anos de vida e a sua contribuição para a sociedade canadiana.
Hoje, ao lado dos seus entes queridos, Maria Isaltina celebra não apenas seu aniversário, mas também uma jornada de conquistas e superações. A sua história é um testemunho vivo do poder da resiliência e determinação humana, inspirando não apenas a sua família, mas a comunidade como um todo.
Enquanto ela compartilha memórias de tempos passados, os seus filhos, netos e bisnetos ouvem atentamente, absorvendo a sabedoria e a riqueza de experiências de uma mulher corajosa e notável.
Maria Isaltina, a imigrante açoriana que atravessou fronteiras e rompeu barreiras, deixa um legado de perseverança e amor, mostrando a todos que a determinação e a fé podem mover montanhas e fazer os sonhos tornarem-se realidade.
