Brasília do Porto foi o 1.º centro comercial da Península Ibérica e celebra 50 anos em outubro

Porto, 06 set 2026 (Lusa) — O primeiro centro comercial de toda a Península Ibérica é o Shopping Brasília e nasceu há 50 anos na cidade do Porto, junto à Rotunda da Boavista. O principal chamariz eram as escadas rolantes que faziam as delícias dos clientes que subiam e desciam vezes sem conta como se fosse um parque de diversões.

A festa do 50.º aniversário assinala-se dia 09 de outubro e as atividades arrancam pelas 18:00 com a inauguração, na porta lateral do centro comercial, de um mural de 10 metros de comprimento por seis metros de altura, do artista plástico Mr. Dheo.

Em 1976, quando o Shopping Brasília abriu portas ao público, o maior chamariz eram as escadas rolantes e vinham pessoas de todo o lado de Portugal e até de Espanha.

“O chamariz primeiro, o chamariz expoente eram realmente as escadas rolantes, porque não havia nenhuma em lado nenhum e havia aqui seis em movimento e as pessoas achavam uma coisa fantástica, lindíssima. As pessoas subiam e desciam, subiam e desciam, traziam a família, traziam os amigos (…). Vinham autocarros de todo o lado, da província, Espanha, Barcelos, Viana [do Castelo], Coimbra, Lisboa” “, recorda Ana Paula Santos, 64 anos, lojista da única ourivesaria que existe atualmente no centro comercial e presidente da Associação de Comerciantes do Brasília.

A lojista recorda que o Brasília teve um “potencial extraordinário” ao nível da envolvência socioeconómica, porque trabalhava muita gente naquele espaço comercial e “movimentava muita gente diariamente”.

Ana Paula Santos conta que o Brasília foi o pioneiro no comércio aberto até à meia-noite, o que levou à existência de vários turnos laborais no centro comercial, mudando para sempre o paradigma dos horários das lojas abertas ao público.

“Fomos os pioneiros na abertura do comércio até à meia-noite. Se hoje em dia todos trabalham e têm essas oportunidades, a nós nos devem isso, porque disputámos essa ousadia, essa novidade, alargar as horas de trabalho, logicamente, com legalidade”.

Sofia Silva, 61 anos, outra comerciante do Brasília com uma loja de cristais, tinha 15 anos quando o centro comercial abriu. Recorda que o centro comercial “era um mar de gente” para experimentar as escadas rolantes, mas também para degustar os croissants de chocolate e os gelados.

“Era muita gente, toda louca com as escadas rolantes (…). Era uma época de consumo. Toda a gente consumia, vendia-se de tudo. Quem tinha loja aqui no shopping nessa altura é certo que ganhou dinheiro”, asseverou Sofia Silva.

Outra singularidade do Shopping Brasília era que tinha muitas jovens funcionárias nas lojas do Brasília com horarários prolongados, “havia uma atração pelas novas funcionárias (…) abre-se com um novo ‘look’, a rapariguinha era atrativa, simpática, elegante”, ao ponto de inspirar o compositor Carlos Tê a escrever a música “A Rapariguinha do Shopping”, celebrizada depois pela voz do cantor Rui Veloso: “A rapariguinha do shopping / Bem vestida e petulante / Desce pela escada rolante / Com uma revista de bordados / Com um olhar rutilante / e os sovacos perfumados”.

A música deu o mote para o livro intitulado “A rapariguinha do Shopping já é avó”, de Júlio Rodão, que vai ser apresentado dia 07 de outubro no âmbito do 50.º aniversário.

No dia 08 de outubro há uma sessão de ‘showcooking’, pelo chefe Hélio e outros cozinheiros da cidade, com o objetivo de dinamizar as comemorações dos 50 anos do Brasília através da gastronomia.

“Vai ser um evento de duas horas com os chefes da cidade. Uma coisa engraçada, forte, pujante”, disse a presidente da Associação dos Comerciantes do Brasília.

O antigo lago com barquinhos para as crianças desapareceu e vai ser este mês transformado numa “pequena praça comemorativa dos 50 anos do Brasília” para estar pronta nas celebrações, conta Luís Pinho, administrador do condomínio do Brasília.

O Brasília nasceu em 1976 com uma sala de cinema com 400 lugares e 242 lojas, muitas delas dedicadas a vestuário com marcas internacionais diferenciadas, como a marca italiana Moschino, recorda Ana Paula Santos.

Mas, em 1982, com a terceira fase de construção marcada pelo uso de mármore rosa e espelhos ao estilo nos anos 80, nasce um ginásio onde a maioria dos clientes eram mulheres para fazer aulas de aeróbica, lembra a presidente da Associação dos Comerciantes.

Tanto o histórico Cinema Charlot, como o ginásio, encerraram durante a última década e a pandemia da covid-19 veio asseverar a crise económica em todo o espaço comercial.

As obras de remodelação das áreas comuns do Centro Comercial Brasília concluídas em 2024 — um investimento na ordem de meio milhão de euros — e o ‘rebranding’ da marca Shopping Brasília para “Brasília Faz Parte”, trouxeram mais investidores e lojistas.

Segundo o administrador do condomínio, Luís Pinho, o ginásio vai reabrir este mês de setembro.

O ginásio tem 700 metros quadrados de área e foi adquirido pela cadeia de ginásios e health clubs em Portugal Lemonfit, estando apenas a faltar a autorização da Câmara do Porto para a colocação das máquinas para treinos para abrir ao público, explica Luís Pinto.

O espaço do antigo Cinema Charlot, com 400 lugares sentados, foi adquirido por “investidores portugueses” e está em fase de estudo de projeto para ser um espaço multiúsos”, acrescentou Luís Pinto.

A um mês do Brasília celebrar 50 anos, estão 95% das lojas abertas, ou seja, de um total de 243 lojas, estão 223 lojas ativas, e dessas há 35 lojas dedicadas à beleza e estética.

“Temos tido uma forte imigração brasileira que trouxe esta tendência de cuidar do corpo”, explicou Luís Pinto, referindo que o centro comercial se destaca por ter muitas lojas de especialidade e com produtos de várias nacionalidades, designadamente da Índia e do Brasil, mas também de África.

Gabriela Rodrigues, 33 anos, proprietária de duas lojas de estética no Brasília e prestes a abrir a terceira, conta que escolheu aquele espaço por causa da localização e do estacionamento.

“Os clientes vêm muito por causa do estacionamento fácil”, observa, acrescentando que os seus clientes procuram preferencialmente tratamentos de laser facial e corporal, limpezas de pele e tratamentos de manchas.

Outra das novas lojas do Brasília que está com muita clientela é a clínica de fisioterapia. Segundo Maria João Gonçalves, a gestora da clínica, o espaço tem muita procura, por causa da “localização, dos acessos a transportes como o metro, e pelo serviço diferenciado”.

“O facto de estar perto de vários hospitais também ajuda”, indica, explicando que um dos serviços que mais é requisitado é a recuperação de cicatrizes pós-parto. “Temos clientes que vêm fazer cirurgias ao Porto e ficam a fazer a recuperação aqui”.

O futuro do Brasília vai ser “risonho” e “brilhante”, estima Ana Paula Santos.

Da mesma opinião é Jéssica Pereira, 30 anos, que ajuda a mãe da loja Faça Você Mesmo, dedicada à cópia de chaves.

Jéssica já é a terceira geração da família na loja Faça Você Mesmo, que superou as crises financeiras e a pandemia da covid-19, resistindo há quase 50 anos de portas abertas recorda Luísa Pereira.

“Eu desde pequena, desde que nasci, que estou aqui. As minhas lembranças mais antigas são de estar aqui com muita gente. Andar aqui a correr nos corredores e ir contra as pessoas, porque era muita gente nos corredores. Depois acabou por acalmar um bocadinho”, lembra.

Segundo recorda Jéssica Pereira, a pior fase pela qual a loja passou foi mesmo na covid-19, em 2020, quando o centro comercial “estava completamente vazio” e “muitas das lojas acabaram por fechar”.

“Agora as lojas [abertas] aumentaram mais (…). Acho que agora está a ir ao sítio, está a começar a levantar o shopping”, considera a jovem, esperando que o “movimento volte” à semelhança das suas memórias de infância.

*** Cecília Malheiro (Texto) e José Coelho (Fotos), da agência Lusa ***

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