Brasil/Eleições: Guerra de cores de camisolas divide brasileiros também em Lisboa

Lisboa, 04 out 2026 (Lusa) — Milhares de brasileiros enchem hoje a relva e os principais acessos à Universidade de Lisboa para votar na primeira volta das presidenciais brasileiras, uma guerra que também é de cores, quase como claques de Lula ou Flávio Bolsonaro.

Os apoiantes de Bolsonaro utilizam símbolos como a t-shirt da seleção brasileira ou a bandeira enquanto os apoiantes do atual Presidente preferem o vermelho, a cor do Partido dos Trabalhadores que apoia Lula da Silva.

“Mas a cor do Brasil nunca será vermelho de sangue, te juro”, avisa Eliete Silva, do Maranhão a viver na Amadora, onde já tem uma filha nascida em Portugal, mas embrulhada na bandeira brasileira e que fala com sotaque brasileiro com a mãe e português com os jornalistas.

Vestida com as cores da seleção, Eliete segura a filha com uma mão e com a outra um cartaz com a imagem de Lula preso.

À sua passagem, outros gritam “13” [os dígitos da candidatura de Lula] ou “quem está preso é o pai”, numa referência a Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

A poucos metros, Mark Martins e Simone Sousa vêm vestidos de vermelho com símbolos comunistas desde Leiria, tal como o filho de um ano, ainda no carrinho.

“O vermelho é a cor do partido dos trabalhadores, mas também representa a esquerda. A ideologia que tanto eu como ela seguimos para a nossa vida”, disse Mark Martins, referindo-se à mulher.

“O outro lado meio que abraçou a bandeira brasileira, como se fosse só deles” e “vimos de vermelho para demonstrar apoio ao Presidente Lula”, acrescentou.

Sobre o resultado das eleições, Simone acredita que “vai ter segundo turno. No final ganha Lula. Né, filho?”, abraçando o filho e murmurando: “Oremos”.

Mas se muitos brasileiros usam a cor da seleção ou de clubes locais, Junior optou por trazer a cor do país onde vive há 21 anos: a seleção portuguesa, com o sete de Cristiano Ronaldo.

“Estou com um pouco de receio do resultado, mas confiante que o melhor vai vir”, disse, justificando a opção pela ‘t-shirt’ portuguesa: “Porque é vermelha e também porque moro aqui e junto o útil ao agradável”.

“O outro símbolo roubou a nossa camisola da seleção nacional. E hoje em dia tenho vergonha em usar a camisola da seleção porque foi politizada”, explicou Junior, natural de Fortaleza, que compara o uso dos símbolos nacionais nos dois países.

“Acho pouco provável porque a mentalidade dos portugueses é um bocado diferente dos brasileiros e é pouco provável pegar num símbolo nacional e politizar deste modo”, disse.

Mas a disputa das cores não necessita de símbolos partidários para se fazer sentir. Vanusia e Leandro traziam camisolas vermelhas de marca – Guess e Timberland — que poderiam usar noutro dia qualquer.

Mas “hoje é um dia diferente e é para caracterizar que estamos do lado do Lula”, disse Vanusia. “É para mostrar mesmo”, acrescenta o marido.

Mas Eliete Silva tem uma visão diferente. “Qual é a cor mais bonita, mesmo? A do Brasil, verde e amarela, ou esse vermelho de sangue?”

Quanto às eleições, a imigrante em Portugal tem receio. “Dessa vez vamos ver se o sistema não toma as eleições, né? Porque a gente tem de tirar o PT do Governo, só não vê quem é burro”.

Por isso, “espero que o Flávio ganhe no primeiro turno”, disse, considerando que a “pessoa da direita é uma pessoa estudada, porque só quem não sabe é que continua a votar naquele ladrão que é o Lula”.

E a fidelidade de Eliete vai ainda mais longe. “Eu sou ‘bozo’ mesmo. Votei no pai e agora voto no filho. Voto neles pelo menos até o Nikolas [Ferreira, um influencer de direita muito conhecido no Brasil] se conseguir candidatar”.

O Brasil é um país continente em que as fidelidades se misturam. Natural do Maranhão, Eliete usava uma camisola do clube de futebol paulista Corinthians com a imagem de Sócrates, o herói da ‘Democracia Corinthiana’ que lutou contra a ditadura e foi um conhecido líder da esquerda brasileira.

Mais de 158 milhões de brasileiros são hoje chamados às urnas para as eleições gerais do país, em que se procura também eleger o próximo Presidente, num escrutínio altamente polarizado entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

O Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, procura a reeleição aos 80 anos e o seu quarto mandato, enquanto o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, tenta devolver o poder ao campo bolsonarista, quatro anos depois da derrota do pai contra o mesmo adversário que tenta agora derrotar, apesar de as sondagens apontarem para um empate técnico.

Em Portugal estão recenseados mais de 134.000 brasileiros que deverão votar obrigatoriamente nas eleições presidenciais de hoje, nas mesas de voto disponíveis no país, que estarão abertas das 08:00 às 17:00.

Lisboa é o maior ponto de votação de brasileiros no estrangeiro e Portugal é o segundo maior colégio eleitoral no estrangeiro, atrás dos Estados Unidos da América.  

*** Serviços áudio e vídeo disponíveis em www.lusa.pt ***

*** Paulo Agostinho (texto), Rui Pereira (vídeo) e António Pedro Santos (fotos) ***

 

PJA // EA

Lusa/Fim