Assinaturas de van Gogh permitem perceber relação do artista com a sua obra – Estudo

Amesterdão, 13 ago 2026 (Lusa) – A presença da assinatura Vincent em menos de um quinto dos quadros de Vincent van Gogh permite perceber a relação do artista com a sua obra, segundo o estudo “Simplesmente Vincent”, hoje publicado pelo Museu van Gogh, em Amesterdão.

Realizado pela investigadora Julia Engelmayer e datado de abril deste ano, o estudo “Simply ‘Vincent’- An overview of Van Gogh’s signed paintings” (“Simplesmente ‘Vincent’ – Uma visão geral sobre as pinturas assinadas por van Gogh”) defende que a presença ou ausência de assinatura nos quadros, assim como a cor em que é feita permitem abrir “uma pequena janela” para a compreensão de van Gogh e da relação que mantinha com o seu trabalho.

Por vezes vermelha e bem visível, outras vezes discreta ou escondida entre pinceladas, a assinatura Vincent – ou a abreviatura Vt – surge em apenas 133 dos 840 quadros de Vincent van Gogh (1853-1890), representando pouco mais de 15% do total da sua produção artística, feita nos seus dez últimos anos de vida.

Orgulho, amizade, equilíbrio composicional ou motivos puramente comerciais aparentam estar na base da opção de van Gogh, de acordo com o estudo.

A investigadora Julia Engelmayer, antiga curadora do Museu van Gogh, no âmbito da sua tese de mestrado, reuniu as assinaturas numa base de dados e analisou-as por cor, forma, posição e visibilidade, associando a análise da grafia do pintor. Recorreu ainda a documentação do artista, como a correspondência com o irmão Theo.

As assinaturas de van Gogh já tinham sido estudadas em 2013 pela curadora Marieke Jooren, em “Van Gogh’s Finishing Touches”, mas as questões então levantadas exigiam uma abordagem mais abrangente, como a quantificação das telas, uma análise dos diferentes estilos de caligrafia e o contexto das obras, defende Englemayer na introdução do estudo hoje divulgado.

Ao contrário do uso generalizado, no final do século XIX, de assinar com o apelido, van Gogh optava sempre pelo primeiro nome. Segundo a investigadora, a opção prendia-se com a atividade de van Gogh em França: Vincent não oferecia dificuldades de pronúncia, por oposição ao apelido neerlandês.

Numa missiva de março de 1888, dirigia a Theo, van Gogh pediu que o seu nome aparecesse publicamente tal como o escrevia nas telas: “Vincent e não van Gogh”, pela “excelente razão” de que as pessoas não conseguiriam pronunciar o apelido.

Van Gogh, segundo Julia Englemayer, rompeu também com as convenções em relação à cor, utilizando cores vibrantes como o vermelho, que se encontra na assinatura de pelo menos 75 quadros. Foi o caso de “Marine Landscape near Les Saintes-Maries-de-la-Mer” (1888), porque, como explicou a Theo, precisava de “uma nota vermelha no verde” da paisagem.

Julia Engelmayer recorda que o pintor, que só começou a assinar os seus quadros em 1884, era muito crítico quanto à sua obra e considerava grande parte do seu trabalho como exercícios ou estudos preparatórios.

A frequência das assinaturas aumentou durante a permanência em Paris, acompanhando ambições comerciais, defende a investigadora, e manteve-se elevada no início da estada em Arles.

Engelmayer afirma que as cartas de van Gogh mostram que assinava pinturas de que se orgulhava particularmente, como “The Potato Eaters” (1885), que considerava a sua primeira obra-prima: escreveu “Vincent” no encosto de uma cadeira, embora a assinatura seja agora quase invisível.

Assinava também obras destinadas a familiares, amigos ou a trocas com outros artistas, embora um caso singular seja “Three Pairs of Shoes” (1886), trocada com o pintor australiano John Russell, que contém duas assinaturas: uma pequena, ao estilo de van Gogh, e uma maior com caligrafia semelhante à de Russell – o que sugere que o pintor australiano pode ter acrescentado a assinatura mais visível.

A frequência das assinaturas diminuiu nos últimos anos da vida de van Gogh, sobretudo após o seu internamento no sanatório de Saint-Rémy, em 1889. Durante os seus últimos meses em Auvers-sur-Oise, acrescentou Vincent a apenas uma tela: o retrato de Adeline Ravoux, que ofereceu à jovem modelo, nota a investigadora.

Numa carta de 1888 endereçada a Theo, van Gogh escreveu: “Tinha começado a assinar as minhas pinturas, mas depressa parei. Parecia-me demasiado sem sentido”.

Julia Engelmayer conclui que não existe uma explicação isolada para Vincent van Gogh assinar ou não os seus quadros, prendendo-se antes com orgulho, amizade, aspirações comerciais ou razões puramente composicionais. Mas a sua relação com o ato de assinar ou não, conclui, “abre uma pequena janela” para a forma como vivia a pintura.

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