
Lisboa, 25 mar 2026 (Lusa) — A escritora indiana Arundhati Roy é uma das seis finalistas ao Women’s Prize de não-ficção, com o livro “Meu abrigo, minha tempestade”, numa lista “excecional”, que inclui Lyse Doucet, Ece Temelkuran, Daisy Fancourt, Judith Mackrell e Jane Rogoyska.
Escolhidas a partir de uma lista de 16 nomeadas ao prémio, as obras que figuram na ‘shortlist’, hoje divulgada pela organização, exploram, através de perspetivas pessoais, temas como migração, conflito, identidade, criatividade, bem-estar e ligação humana, numa seleção que o júri considera “oportuna e intemporal”.
“The Finest Hotel in Kabul: A People’s History of Afghanistan”, de Lyse Doucet, “Art Cure: The Science of How the Arts Transform Our Health”, de Daisy Fancourt, “Artists, Siblings, Visionaries: The Lives and Loves of Gwen and Augustus John”, de Judith Mackrell, “Hotel Exile: Paris in the Shadow of War”, de Jane Rogoyska, e “Nation of Strangers: Rebuilding Home in the 21st Century”, de Ece Temelkuran, são as restantes finalistas do Women’s Prize for Non-Fiction.
Segundo a presidente do júri, Thangam Debbonaire, as obras agora anunciadas evidenciam “o poder e a necessidade da escrita de mulheres”, numa altura em que dados recentes apontam para um declínio nas vendas de não-ficção em papel no Reino Unido.
“Estes livros são um antídoto urgente contra a desinformação e a má informação, escritos com elevados padrões de rigor académico. Oferecem perspetivas ricas e originais, num mundo frequentemente fragmentado e incerto. São seis livros de autoridade, contados com humanidade”, acrescentou, citada no comunicado oficial do Women’s Prize.
O livro de memórias “Mother Mary Comes to Me” (“Meu abrigo, minha tempestade”, na tradução portuguesa, pela Asa) da escritora e ativista Arundhati Roy, no qual a autora transforma a dor pela morte da mãe em narrativa, é o único dos livros finalistas publicado em Portugal.
Nesta obra, a autora de “O deus das pequenas coisas”, com o qual se consagrou a primeira pessoa indiana a vencer o Prémio Man Booker, explora a relação complexa e intensa que teve com a mulher de quem se afastou aos dezoito anos, percorrendo a sua vida desde a infância em Kerala até aos dias atuais.
Em “The Finest Hotel in Kabul: “A People’s History of Afghanistan”, a jornalista canadiana, correspondente internacional da BBC, Lyse Doucet aborda a história contemporânea do Afeganistão através das vivências de funcionários e hóspedes do Hotel Inter-Continental de Cabul, aqui usado como metáfora do país.
Já a obra “Art Cure: The Science of How the Arts Transform Our Health”, escrito pela cientista britânica Daisy Fancourt, explora, com base em investigação científica, como a participação nas artes e na criatividade pode melhorar a saúde física e mental, reduzindo o ‘stress’ e a depressão e contribuindo para uma vida mais longa e saudável.
A escritora e crítica de dança britânica Judith Mackrell relata as vidas entrelaçadas e a relação artística e pessoal dos irmãos Gwen e Augustus John, explorando o seu impacto na arte britânica e as tensões entre ambição, talento e vida íntima, na obra “Artists, Siblings, Visionaries: The Lives and Loves of Gwen and Augustus John”.
“Hotel Exile: Paris in the Shadow of War”, da escritora britânica de origem polaca Jane Rogoyska, retrata a história do Hotel Lutetia, em Paris, desde a sua fundação, em 1910, como ponto de encontro de artistas e intelectuais, mas também cenário de episódios marcantes da Segunda Guerra Mundial.
Neste livro, a autora conta as histórias dos frequentadores do hotel, desde intelectuais e ativistas políticos fugidos da Alemanha nazi, a oficiais da contraespionagem alemã presentes no hotel durante a ocupação, até sobreviventes do Holocausto que ali procuraram refúgio após a libertação, explorando o impacto humano do exílio, da guerra e da sobrevivência.
Quanto à jornalista e escritora turca Ece Temelkuran, optou por explorar, no seu “Nation of Strangers: Rebuilding Home in the 21st Century”, como as crises políticas, a migração e a globalização têm fragmentado o sentido de pertença, propondo novas formas de reconstruir a ideia de “casa” no século XXI.
Desde que deixou o seu país há uma década, Ece Temelkuran acompanha o crescimento de crises globais, alertando para a aproximação do fascismo e para a fragilidade das instituições e lares, tema que aborda em “Nation of Strangers”, através de cartas escritas de um estrangeiro para outro, combinando reflexão política e experiência pessoal, e mostrando como, num mundo cada vez mais opressivo e fragmentado, a sobrevivência e o sentido de “casa” dependem da solidariedade entre aqueles que se tornam estranhos.
De acordo com a organização do prémio, estes seis livros refletem a diversidade da escrita de não-ficção contemporânea, cruzando diferentes geografias — da Ásia à Europa e ao Médio Oriente — e abordando experiências individuais que revelam dimensões universais da condição humana, incluindo resiliência, coragem e adaptação.
A vencedora será anunciada a 11 de junho, em Londres, juntamente com a obra vencedora do Women’s Prize for Fiction.
O prémio literário Women’s Prize for Non-Fiction distingue obras de não-ficção escritas por mulheres, um “prémio irmão” do Women’s Prize for Fiction, que foi anunciado em fevereiro de 2023 e atribuído pela primeira vez em 2024.
O prémio principal tem o valor de 30 mil libras (cerca de 35 mil euros) e será financiado pelo Charlotte Aitken Trust, um fundo criado pelo agente literário Gillon Aitken (1938-2016) em nome da sua única filha, Charlotte, que morreu em 2011, com 27 anos.
No ano passado, a vencedora do Women’s Prize for Non-Fiction foi a médica de cuidados paliativos do Serviço Nacional de Saúde britânico Rachel Clarke, com “The Story of a Heart”.
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