
Serpa, Beja, 28 set 2026 (Lusa) — Cerca de 50 agricultores do concelho de Serpa, distrito de Beja, protestaram hoje contra as “condições impraticáveis” do setor devido ao elevado preço dos combustíveis, que coloca em risco sementeiras de outono/inverno e a apanha de azeitona.
“É uma coisa alarmante, é impossível trabalhar nos campos, o custo de produção é superelevado”, argumentou hoje Bruno Jacob, que tem cerca de 600 hectares agrícolas neste concelho alentejano, onde semeia cereais como trigo e aveia.
O agricultor, que tem igualmente gado – possui 1.000 ovelhas, 400 cabras e 300 vacas –, afiançou que, perante o atual preço dos combustíveis e dos fatores de produção, está a equacionar reduzir a área de cultivo.
“Este ano, estou a pensar fazer, se calhar, 25 a 30% da área que costumo fazer, porque é impossível conseguir levar estes preços até ao final da campanha”, afirmou.
Também o agricultor António Morgado, que detém perto de 600 hectares agrícolas, uma parte com olival, avisou que “estes aumentos sucessivos” do preço dos combustíveis e dos fatores de produção estão “a jogar à falência o pessoal”.
E, este ano, alertou, “vai ficar com certeza muita azeitona por apanhar”, porque não compensa face ao atual preço do azeite.
“O azeite subiu hoje para 3,38 euros”, um preço que “não vai dar nem 50 cêntimos o quilo” de azeitona, pelo que, com as prestações de serviço “a 30 e a 35 euros, é melhor deixá-la lá”, na árvore, assinalou.
Estes foram alguns dos lamentos dos agricultores da APROSERPA – Associação de Produtores do Concelho de Serpa que se reuniram hoje de manhã numa herdade perto de Vila Nova de São Bento, em protesto contra o preço dos combustíveis, sobretudo do gasóleo agrícola, que está acima de 1,80 euros por litro.
A agricultura no concelho enfrenta, atualmente, “condições impraticáveis, especialmente a de sequeiro”, disse aos jornalistas o presidente da APROSERPA, João Revez, durante a concentração no campo, rodeado por quase 30 tratores.
Os apoios do Governo “são insuficientes”, afiançou o dirigente, explicando que, “neste momento, é completamente impossível” aos agricultores avançarem “para as sementeiras de outono/inverno”.
“Já sabemos que vamos trabalhar com prejuízo”, porque, mesmo que as condições climatéricas ajudem e “o ano venha a favor”, não vão “conseguir refletir [o aumento dos custos de produção] na venda dos produtos no final do ano”, assegurou.
Em relação ao preço dos combustíveis, João Revez ilustrou que, por dia, com o uso de trator para preparar as terras, um agricultor gasta “320 litros de gasóleo”, em oito horas de trabalho: “Agora multiplique isso por uma semana”, desafiou.
Os apoios que o Governo já anunciou para os agricultores traduzem-se num acumulado de “36 euros” para cada um, acrescentou.
“Esses 36 euros não dão para comprar 20 litros de gasóleo, que é o que uma máquina de potência média, com 100 cavalos, gasta numa hora de trabalho pesado. Se tivermos duas máquinas dessas a trabalhar num hectare, chegamos ao fim do dia e gastamos” o mesmo que “um carro a gasóleo pode gastar para percorrer 6.000 quilómetros”, exemplificou.
E, além disso, “tudo encareceu”, disse, aludindo aos adubos, fertilizantes ou ferragens, entre outros fatores de produção.
A APROSERPA, que quer a descida do preço do gasóleo agrícola, reclamou a deslocação ao terreno do ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, para falar com os agricultores e ver “a tragédia” que enfrentam, caso contrário os ‘homens da terra’ ameaçam avançar com outras formas de luta.
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