“Abel” traz amor e alegria à cura de crianças internadas em Luanda

Luanda, 04 abr 2026 (Lusa) — Muitas crianças internadas ficam também sem escola e para tentar ultrapassar esta dificuldade, Olga Leite criou o projeto educativo “Abel” que leva a escola até às crianças internadas no Hospital David Bernardino, a principal unidade pediátrica de Luanda.

Ao cimo das escadas do velhinho hospital que dão acesso a uma colorida sala de aula está o professor Evaristo e a sua turma de idades variadas. As crianças saúdam a equipa de jornalistas com um alegre “bom dia” e um deles, Bartolomeu, mais espevitado, até arrisca — e bem — explicar o papel de um jornalista: “traduzem as histórias que se passam no país”.

Na porta da sala, quatro palavras condensam a filosofia do projeto: Amor, Cura e Alegria, unidas pela Paz.

Lá dentro, as paredes brancas do hospital ganham vida com cartazes coloridos, cheios de números, letras, estações do ano, dias da semana e muitos desenhos. Há disciplinas como música, inglês e matemática, ensina-se reciclagem e hoje é dia de receber um comandante da companhia aérea portuguesa TAP, no âmbito do Dia das Profissões.

“Dar comida é importante, mas mudarmos vidas… é por aqui”, diz Olga Leite sobre o projeto que arrancou em outubro do ano passado.

O nome do projeto foi inspirado por Abel, um menino de rua, engraxador, que Olga Leite conheceu numa circunstância “feliz”: “Há uma bola que cai à água e o Abel atira-se à água para apanhar a bola”. É nessa altura que se apercebe que a criança tem um problema no rosto e empreende uma cruzada pelos hospitais de Luanda até encontrar um especialista maxilofacial que aceitou ajudá-lo.

Quando Abel foi internado no Hospital Pediátrico — primeiro para tratar a sarna e um problema respiratório que o impediam de entrar no bloco operatório — Olga deu-lhe um caderno que, no dia seguinte, estava preenchido com o abecedário.

“Eu percebi que para ele, que estava doente, com um problema de saúde muito grave e raro, preencher aquele caderno foi um escape. E senti que o processo de cura dele passava também pela educação, pela aprendizagem, por uma atitude menos ligada à saúde e mais focada nele”, diz.

Por isso, “fazia todo o sentido criar-se um projeto de alfabetização e educação para a cidadania”, explica à Lusa. E assim nasceu, em parceria com Leonor Patraquim Rosa e Ana Nobre, o primeiro conceito de escola hospitalar em Angola, instalado no Hospital David Bernardino.

O projeto destina-se exclusivamente a crianças internadas — à espera de cirurgia, em internamento prolongado ou em tratamento de hemodiálise — de todas as idades e provenientes de todas as províncias do país.

O currículo vai muito além da alfabetização básica. Língua portuguesa, matemática e inglês convivem com música, artes plásticas e literatura infantil.

“O processo de cura deles passa pelo hospital, naturalmente, mas também entendemos que o amor e a educação e a cidadania e a música e a literatura e o desenho também fazem parte deste processo de cura e de tratamento”, afirma Olga Leite.

Por isso, não se contentaram com a alfabetização: “Quisemos ir muito mais longe para nos permitir também descobrir talentos”, diz a mentora o projeto, entusiasmada com os “imensos talentos” e habilidades raras que têm sido descobertos. “É emocionante perceber aqui crianças com uma habilidade extraordinária para o desenho, para a pintura e que muitas vezes são habilidades inexploradas”, congratula-se.

Para afastar o “ambiente hostil”, os professores não usam batas brancas”.

Na sala colorida do David Bernardino, Evaristo Castelo Morais — “professor Moranguinho”, apelido que deve ao avental estampado que nunca dispensa — tem 25 anos e uma convicção inabalável: toda a criança que passe pelas suas mãos não deve enfrentar os mesmos obstáculos que ele próprio enfrentou na infância.

“A minha teoria foi de que toda a criança que passar pelas minhas mãos não precisa passar nos mesmos problemas que eu passei para hoje me tornar o que eu sou. Então, se eu passei mal, a minha função é facilitar o processo da criança”, diz.

Chegou ao projeto por indicação de uma colega, numa seleção que procurava não apenas quem soubesse dar aulas, mas quem fosse capaz de “transformar a consciência” — e de apresentar “amor, carinho e disponibilidade imediata para cuidar das crianças”. Evaristo já dava aulas há cinco anos, em colégios e na catequese da sua igreja, e aqui ensina um pouco de tudo, inglês, português, matemática e até canto, já que é músico na igreja.

Dar aulas num hospital, garante, é diferente de qualquer outra sala de aula. “Nas outras instituições seguimos currículos, onde muitas vezes só cumprimos um programa sem antes termos a noção se o aluno entendeu. Aqui não”, nota, acrescentando que é preciso ser cauteloso e paciente.

Evaristo recebe em troca os ensinamentos das crianças: “Me ensinam a amar. A melhor coisa”.

O projeto “Abel” funciona sem aceitar doações em dinheiro — “por este projeto nunca passou um kwanza”, garante Olga Leite, explicando que cada parceiro ajuda com o que pode ,seja carpintaria, canalizações e sistema elétrico ou oferta de wi-fi e televisão para a sala de aulas.

O pagamento dos professores é assegurado por dois parceiros — um empresarial e outro da área da educação internacional, enquanto o material didático e os manuais escolares são enviados por escolas portuguesas e transportados gratuitamente pela TAP, através da organização TAKE CARE, que envolve tripulação da aviação civil.

Quanto ao reconhecimento oficial das aprendizagens, os Ministérios da Educação e da Saúde estão a trabalhar em parceria para encontrar um mecanismo que valide o que é ensinado no Projeto “Abel”. “O objetivo é que as crianças, quando têm alta e voltam para o seu meio familiar, possam ser integradas e que possa ser de alguma forma reconhecida toda a aprendizagem desenvolvida aqui”.

O próximo passo já está em preparação: um programa de apadrinhamento que identifique crianças com talentos específicos — na leitura, na matemática, na música, nas artes plásticas — e que estabeleça uma ponte com padrinhos individuais ou corporativos. “Este projeto pode claramente mudar o percurso de vida de muitas crianças”.

É o caso de Josiel, uma criança com 5 anos que nasceu sem ânus e que foi sujeito a uma colostomia, que obriga ao uso de uma bolsa coletora de fezes.

No bairro, Josiel não tinha amigos, como relata a mãe, Júlia António, à Lusa. Não ia à escola. Não saía de casa. Ficava apenas no quintal, e era alvo de troça e exclusão. “Você, até como mãe, vê, sente que o teu filho nasceu assim, mas isso dói”, conta, com a voz embargada.

Quando chegou ao Hospital David Bernardino, o mundo mudou. Fez a cirurgia, o tratamento progrediu e o “Abel” fez o resto. Hoje, Josiel fala inglês, usa numeração, cita os dias da semana. “Pela maneira que ele fala, ele tem uma atitude tipo uma pessoa mais velha, que não tem medo”, diz a mãe, orgulhosa.

Júlia foi abandonada pelo pai da criança e vive no hospital há quase cinco meses, enquanto os outros dois filhos estão em casa de uma cunhada. Perdeu o trabalho e a casa, mas encontra força quando olha para o filho, que agora sorri, estuda e aguarda tranquilamente por mais uma operação. “O meu menino, se hoje ele é o que é, é graças às diretoras que fizeram esta escola”, emociona-se.

Numa outra sala, que junta crianças, mães e pessoal médico, o comandante Miguel Carvalho, da TAP, prepara-se para contar a história da sua vida e da sua profissão, perante o olhar atento dos miúdos.

“Foi um momento especial, em que levamos sempre mais do que aquilo que deixamos”, conta depois à Lusa, mostrando-se surpreendido com a curiosidade das mães que queriam “saber mais sobre a aviação, sobre os aviões, como é que funciona”.

 Quanto à importância de levar estas experiências até ao hospital, não tem dúvidas: “Trazer um pouco do exterior é sempre bom. Trazer momentos em que nos levem um bocadinho para fora daqui, em que nos ponham a sonhar — no caso, com a profissão de piloto, mas pode ser qualquer outra. Pôr as crianças a voar alto”.

No final, as crianças mostraram que podem não saber pilotar um avião, mas cheias de alegria mostraram que sabem tocar flauta — e não perdem a vontade de voar.

*** Raquel Rio (texto), Marcos Focosso (vídeo) e Ampe Rogério (fotos), da agência Lusa ***

 

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