A vida e o rasto de Luís de Camões em duas exposições inauguradas na Biblioteca Nacional

Lisboa, 05 mai 2026 (Lusa) — Duas exposições dedicadas a Luís de Camões, integradas na programação das comemorações do quinto centenário do nascimento do poeta, foram hoje inauguradas na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa, assinalando o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

As mostras, intituladas “No rasto de Luís de Camões” e “Onde terá segura a curta vida? Camões e a vida como viagem”, integram a programação da Estrutura de Missão para as Comemorações do centenário e vão estar patentes até 15 de setembro.

Com curadoria de Vanda Anastácio, “No rasto de Luís de Camões” poderá ser visitada em vários espaços da BNP, propondo uma reflexão sobre a construção da figura do poeta ao longo dos séculos, sublinhando o modo como a sua biografia e obra foram sendo apropriadas e reinterpretadas em diferentes contextos históricos e culturais.

Segundo a BNP, a exposição está organizada em quatro núcleos, abordando na primeira parte as dificuldades associadas à reconstituição da biografia de Camões, devido à escassez de fontes documentais.

O segundo núcleo centra-se nas questões bibliográficas, designadamente na identificação das obras efetivamente atribuíveis ao poeta.

A relação entre a produção camoniana e o contexto científico e tecnológico do Renascimento é o tema central do terceiro núcleo.

A terminar, a exposição foca a presença de Camões na música, mostrando a influência dos seus textos na produção musical.

A curadora destaca ainda que a exposição incide também no “longo rasto” que a associação entre a figura de Camões e Portugal deixou na memória cultural coletiva.

“A plasticidade do mito camoniano e a imprecisão dos contornos históricos da personagem sobre a qual este foi sendo construído parecem ter garantido a longevidade da sua memória”, afirma, citada pela BNP.

Exemplo disso é a forma como, ao longo do século XX, “Luís de Camões e a sua poesia foram apropriados por forças políticas e por ideários antagónicos: representantes do Estado Novo sugeriram leituras ditatoriais, neocolonialistas e misóginas dos seus versos, enquanto os seus opositores adaptavam os poemas camonianos a letras de canções contestatárias que reclamavam a liberdade e anunciavam a Revolução”.

Ou seja, parece que “cada época criou um Camões à sua medida e cada comunidade de língua portuguesa projeta na sua figura e nas leituras das obras que escreveu as suas próprias dores, anseios e angústias”, acrescenta Vanda Anastácio.

Paralelamente, estará patente a exposição “Onde terá segura a curta vida? Camões e a vida como viagem”, com curadoria de Anísio Franco, Filipa Oliveira e Paulo Pires do Vale, que propõe uma abordagem contemporânea à obra do poeta, a partir da ideia da vida como “uma jornada”, destacando temas centrais da sua obra, como o amor, o exílio e a descoberta.

A mostra reúne obras de artistas portugueses e estrangeiros, entre os quais Adrian Paci, Alberto Carneiro, Ângela Ferreira, Carminho, Graça Castanheira, Domingos Sequeira, Horácio Frutuoso, Jorge de Sena, José Almeida Pereira e Mário Linhares.

A exposição combina elementos visuais e literários, para ilustrar a universalidade e atualidade do legado camoniano, explicam os organizadores.

Antes de chegar a Lisboa, esta mostra foi apresentada, em abril de 2025, na sede da UNESCO, em Paris, no âmbito de uma iniciativa da Comissão Nacional da UNESCO, com o apoio de Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique, inserida igualmente nas comemorações do centenário do nascimento do poeta.

O desenho expositivo das duas mostras é da autoria do arquiteto Francisco Aires Mateus, e ambas têm entrada livre.

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