Temporada Música em S. Roque traz estreias contemporâneas e resgata obras do Barroco

Lisboa 08 nov 2026 (Lusa) — A Temporada “Música em S. Roque”, a decorrer da próxima quarta-feira até dia 22, tem programadas estreias absolutas de obras de Sérgio Azevedo e Pedro Rodrigues, e modernas, de obras do Barroco, resgatadas pela investigação dos intérpretes.

Nesta Temporada, que pela primeira vez encerra em Mafra, no Museu Nacional da Música (MNM), será possível ouvir o violoncelo Stradivarius “Chevillard-Rei de Portugal”, classificado como tesouro nacional, pela violoncelista Diana Vinagre, nos concertos de abertura e de encerramento.

O concerto de abertura, na próxima quarta-feira, na Igreja de S. Roque, em Lisboa, “recria a sonoridade única da ‘orquestra’ de instrumentos graves específica da Capela Patriarcal do século XVIII, com a ‘Messa a quattro voci’, de António de Pádua Puzzi”, segundo a organização.

A missa será interpretada pelo Ensemble Bonne Corde, sob direção de Diana Vinagre, que tocará o violoncelo Stradivarius da coleção do MNM, parceiro nesta 38.ª edição da Temporada de Música da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Diana Vinagre volta a utilizar o antigo violoncelo do rei Luís I, no concerto de encerramento, no dia 22, no MNM, em Mafra, no distrito de Lisboa, também protagonizado pelo seu ensemble.

Intitulado “Um Concerto para Maria Bárbara” – filha de João V que foi discípula de Domenico Scarlatti -, nele serão escutadas peças deste compositor e de seu pai, Alessandro, e ainda, de Francesco Supriani, Giovanni Bononcini, Giovanni Battista Pergolesi e Santiago de Murcia, entre outros.

O violoncelo que Diana Vinagre utilizará é o único instrumento do construtor de cordofones Antonio Stradivari (1644-1737), existente numa coleção pública em Portugal.

Além do MNM, os dois outros cenários desta Temporada são a Igreja de S. Roque e o Convento de S. Pedro de Alcântara, no Bairro Alto, em Lisboa. 

A Capela de São João Batista, instalada na Igreja de S. Roque, em Lisboa, classificada como tesouro nacional, dá mote à Temporada.

A capela é o primeiro bem patrimonial da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) que recebeu a distinção de tesouro nacional.  A capela foi encomendada por João V, cujo reinado (1707-1750) serve de referência à Temporada, propondo-se “um diálogo musical entre Lisboa e Roma”, disse à agência Lusa a diretora de Cultura da SCML, Teresa Nicolau.

A escolha do Real Edifício de Mafra, onde está instalado o MNM, é uma “coincidência histórica”, pois este foi mandado edificar pelo monarca referenciado como “o magnânimo”.

Os diferentes agrupamentos musicais apresentaram propostas para a programação da Temporada que foram apreciadas por um júri composto por Teresa Nicolau, Edward Ayres de Abreu, diretor do MNM, e a etnomusicóloga Leonor Losa, conservadora da coleção de instrumentos do Museu.

À Lusa, Teresa Nicolau realçou que as estreias modernas resultam da “investigação de cada um dos grupos” musicais.

As primeiras estreias modernas são no dia 13, pelo Ludovice Ensemble, sob a direção musical de Miguel Jalôto.

Trata-se de uma tocata para órgão, de um autor anónimo da escola romana do século XVIII, e o “Motetto Elisabeth, Zachariae a 4”, de Giovanni Giorgi. O programa inclui ainda obras de Francesco Grassi para a Capela de João V, de Tomás Luis de Victoria e de Gaetano Franzaroli.

No dia seguinte, no Convento de S. Pedro de Alcântara será a estreia absoluta de duas composições de Sérgio Azevedo, pela Camerata Atlântica sob a direção de Ana Beatriz Manzanilla: “Piccola Sinfonia Scarlattiana”, para orquestra de cordas, e “Seixiana”, para cravo e cordas, numa referência aos dois compositores do tempo de João V (Domenico Scarlatti e Carlos Seixas). O programa inclui uma sinfonia e dois concertos para cravo de Seixas.

No mesmo dia, em S. Roque, os agrupamentos Americantiga Ensemble e Nova Era Vocal Ensemble apresentam o concerto “De Roma para Lisboa, com esplendor”.

O programa inclui a estreia moderna do “Laudate Pueri Dominum”, para 16 vozes e baixo contínuo, de Niccolò Jommelli, e obras de João Rodrigues Esteves e Jerónimo Francisco de Lima.

No dia 15, no Convento de S. Pedro de Alcântara, será o recital de acordeão barroco por Paulo Jorge Ferreira, que inclui peças, entre outros, de Alberto Gomes Correia, Carlos Seixas e Domenico Scarlatti, adaptadas pelo acordeonista.

Em S. Roque, o grupo Capella de S. Vicente, sob direção de Pedro Rodrigues, apresenta “Veni Creator Spiritus: três cenas do Espírito Santo”, programa que propõe um percurso auditivo por seis séculos de música litúrgica em Portugal, inspirado nas cenas da Anunciação, do Batismo e do Pentecostes da Capela de São João Batista.

O programa inclui obras em cantochão, entre elas a estreia moderna de “Veni Creator Spiritus”, de Frei João de Pádua, cujo original faz parte do Fundo Musical da SCML, e a estreia absoluta de “Veni Creator Spiritus (Hino de Pentecostes para a Igreja de São Roque)”, de Pedro Rodrigues, alternado com a interpretação de “Solesmes, do Graduale Romano, “Veni Creator Spritus”, em canto gregoriano.

Este concerto inclui outra peça contemporânea, nomeadamente, de João Vaz, “Confirma hoc Deus (Antífonas de Ofertório para a Igreja de São Roque)”. Haverá ainda uma palestra pelo musicólogo Rui Vieira Nery, “A teatralidade na música sacra joanina”.

A Temporada Música em S. Roque é “uma celebração da beleza desta época joanina”, disse Teresa Nicolau à Lusa, sublinhando a identidade de mais de 500 anos da Santa Casa da Misericórdia, que passa igualmente por “trazer nova música, abrindo a possibilidade de a música contemporânea e de os novos músicos poderem celebrar a sua arte e a sua beleza”. 

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