Acampada do Porto tem trabalhadores e estudantes como protagonistas

Porto, 07 nov 2026 (Lusa) – A Acampada do Porto, que desde 10 de outubro tem protestado na Praça D. João I pelo direito à habitação, tem como figuras de proa trabalhadores, estudantes, e estudantes-trabalhadores, da Sociologia à Engenharia Informática, desdobrados num “esforço enorme”.

Henrique Blanc, estudante de mestrado em Gestão de 37 anos, é uma pessoa que já se envolve “em vários projetos sociais”, fazendo parte do Vida Justa, por exemplo.

“Sou licenciado em Gestão, na especialidade de Gestão Financeira, e estou a tirar o mestrado também em Gestão. Com 37 anos já sou algo velho, mas também ainda não estou acabado. Isto tem um contexto por detrás, fiquei reformado por invalidez na sequência de um acidente em 2021”, explica.

O homem que ficou célebre aquando da segunda carga policial que o movimento sofreu, por se sentar de pernas cruzadas, em frente aos polícias, depositando no chão vários cravos, já foi detido e é um dos rostos mais visíveis, uma das vozes mais ativas em prol desta luta pelo direito à habitação.

Blanc está na génese desta acampada, no modelo das que ocorreram em Espanha e outros países, e começou “inicialmente por uma conversa entre três amigos”, e “três dias antes”, sem grande preocupação ou crença de que pudesse crescer tanto, hoje assistem a um “espírito enorme de união, de integração de toda a sociedade”, com atividades diárias e uma luta por um direito constitucional que “tem sido uma coisa fantástica”.

Como se encontra em “processo de requalificação profissional”, tem-se envolvido em projetos sociais, como trabalho de apoio alimentar e pedagógico nos bairros de Aldoar e do Cerco, além da União Romani.

“Ao contrário de grande parte das pessoas aqui presentes, encontro-me numa situação privilegiada. (…) Não deixo de ter familiares,amigos, conhecidos, e não deixam de existir pessoas que precisem que nós lutemos, todos”, atira.

Já Mariana Guedes, de 28 anos, trabalha há sete anos como engenheira informática, área em que se licenciou e em que tem trabalhado desde que saiu da faculdade, e desde sempre que tem sido “muito solidária a tudo o que envolve política e a opressão do povo”, ou como coloca, simplesmente, “estar sempre do lado certo da História”.

“Este movimento vem ao encontro do que eu acredito, que é o direito à habitação. Temos visto sucessivamente no nosso país muitos casos de precariedade. Mesmo quem trabalha a ‘full time’ tem dificuldades em pagar uma renda neste sistema económico”, critica.

A jovem é um dos rostos que tem falado aos jornalistas durante as manifestações e acabou a celebrar o 28.º aniversário no último domingo, numa madrugada em que acabou por fazer parte do cordão de segurança que foi alvo de carga policial, a terceira que o movimento sofreu desde que arrancou, e que mais uma vez destruiu o acampamento.

O discurso desta manifestante desagua constantemente na importância da mobilização e organização popular para lutar por direitos, por um lado, e por outro o que foi encontrando numa Acampada que já conseguiu “grandes conquistas”.

“O trabalho que é feito aqui, a cultura gratuita que oferecemos, a comida disponibilizada gratuitamente, as tendas que já pudemos facilitar a pessoas em condição de sem-abrigo, que encontraram aqui uma comunidade que não tinham outrora, porque são completamente marginalizadas da sociedade. Estou muito contente com o que está a acontecer e entusiasmada para os próximos passos”, nota.

Criticando o “terrorismo policial” que têm enfrentado, os próximos passos, diz, são antes de mais “a resistência”, com o símbolo da tenda presente, e conseguir avançar as suas reivindicações, das quais elenca como mais importante “reverter a nova lei do arrendamento”, que vai “mais uma vez defender e proteger os senhorios e colocar inquilinos em situações de precariedade”.

Apesar da muita mediatização, não se sente “incomodada”, mesmo que tenha recebido comentários negativos e até ameaças à integridade física, ultrapassada com “força e solidariedade completamente assoberbantes”.

“Acredito completamente no que nós estamos a fazer e sinto que tenho muita vontade de falar, tenho muita vontade de comunicar, de me expressar, quer por mim, quer pelos meus companheiros e por outras pessoas que não têm voz e não se podem deslocar, quer à acampada do Porto, quer à acampada de Lisboa, que são de momento as maiores, mas não as únicas no país, portanto não me importo e gosto da oportunidade de poder expressar o que eu acredito e nós acreditamos”, atira.

Uma das conquistas deste primeiro mês de Acampada Porto foi a cantina popular, que todos os dias alimenta 200 a 300 pessoas por dia, gratuitamente, à hora de jantar, segundo estimativa  da organização, mesmo depois de as sucessivas cargas policiais terem destruído todo o material e inventário que tinham – as doações têm-lhes permitido recuperar a cada dia.

É ali que trabalham, noite após noite, Diana Lourenço, de 22 anos, e Isabel Azevedo, de 56, cujos percursos diferentes convergem na mesma missão de servirem os que menos têm enquanto lutam contra um “problema muito grave”, a crise da habitação.

A mais experiente das duas trabalha e juntou-se ao grupo depois de a filha já estar muito ligada, e sempre teve “esta coisa de cuidadora”, ou não mostrasse ela, com orgulho, um cartaz que a identifica como uma “mãe pela Acampada”.

“Comida é conforto. Cruzam-se connosco pessoas de todo o tipo, desde pessoas em situação de sem-abrigo que têm licenciaturas, outros que fizeram más escolhas, doutorados, mestrandos, todo o tipo de pessoas. É esse o encanto deste movimento, que já é uma comunidade”, comenta.

Diana Lourenço, por outro lado, entrega um sorriso a toda a gente que passa pela cantina – “adoro sorrir” – e cursa o mestrado em Sociologia ao mesmo tempo que trabalha, e foi a situação precária que encontrou, do Algarve, onde se licenciou, ao Porto, com quartos a preços muito altos e condições desfavoráveis, que a levaram à rua.

“Troquei de quarto várias vezes por situações em que não podia pagar, ou porque o senhorio decidiu vender o prédio… agora vim para o Porto e o quarto ainda é mais caro que no Algarve. (…) Estar aqui dá-me muita felicidade, mas é complicado. (…) Sou um mau exemplo, estou sempre na praça, porque acho que se tornou um bocado casa, para todos nós. Continuo a fazer a minha vida, trabalhar, estudar”, diz a jovem.

Isabel tem “uma situação estável”, ao lado do marido, com trabalho e casa, mas, a arrendar, podem ficar “à mercê da especulação” ou de um desemprego inesperado, e mesmo assim lutam. “Não ficamos bem se não olharmos à nossa volta. Foi o que sempre ensinei aos meus filhos e o exemplo que lhes dou”, comenta.

Ali, tem encontrado uma cantina que é “resistência”, diz Diana Lourenço, e Isabel, que trabalha “das nove às seis”, já tem como rotina “vir à praça” ajudar mais um pouco, numa cantina popular em que “se recebe mais do que se dá”.

“Vários jovens que trabalham e estudam vêm dizer-nos: ‘ainda bem que vocês estão aqui, porque, senão, eu hoje não ia comer porque não tenho dinheiro’. Isto é algo que nos faz estar aqui todos os dias, e apelo à generosidade de toda a gente, para que nos continuem a trazer o que podem. Os sem-abrigo são de uma generosidade incomparável. Ainda há pouco tivemos aqui uma situação de um senhor que veio trazer uma garrafa de azeite, está em situação de sem-abrigo. Recolheu latas, foi entregar [no sistema Volta] e veio trazer-nos uma garrafa de azeite, porque todos os dias vem aqui comer e reconhece que também tem de dar. Isto é brutal, é um exemplo de empatia para que os nossos governantes deviam olhar. Deviam vir à praça, ver, apreciar, ouvir as pessoas reais, a vida real, não a vida de gabinete”, afirma.

Diana Lourenço lembra outro senhor sem-abrigo que todos os dias “traz um saco de bens” que comprou, para ajudar “a montar a cantina, ajuda a montar a tenda, também”, e ali ensaiam “o símbolo de maior voluntariado que poderia existir”.

“É amor, temos uma comunidade e criou-se uma família gigante. Venham à acampada, venham ver como é a realidade das pessoas, e venham ver que isto também é amor”, remata.

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