Guterres diz que mandatos passam mas luta pela paz, justiça e dignidade continua

Salamanca, Espanha, 06 nov 2026 (Lusa) — O secretário-geral das Nações Unidas disse hoje, a dois meses de deixar o cargo, “que os mandatos passam, mas a luta pela paz, justiça e dignidade continua”, e pediu coragem face “ao ódio e à lei do mais forte”.

António Guterres falava na Universidade de Salamanca, em Espanha, num discurso de agradecimento pelo doutoramento ‘honoris causa’ que lhe concedeu hoje esta instituição.

“Os mandatos passam. A luta pela paz, pela dignidade e pela justiça continua. O que dizíamos ontem continuaremos a dizê-lo e a defendê-lo amanhã”, disse Guterres, depois de lembrar que está a menos de dois meses de deixar o cargo de secretário-geral das Nações Unidas (ONU).

O antigo primeiro-ministro português disse ter sido um privilégio “servir a ONU” durante 20 anos, como secretário-geral e como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, e afirmou ter conhecido “pessoas que perderam tudo menos a esperança”, em “cidades arrasadas pela guerra, campos de refugiados ou ilhas ameaçadas pelo mar”.

“Ensinaram-me que a dignidade tem um rosto e um nome”, afirmou, antes de dizer que a distinção que hoje recebeu da Universidade de Salamanca “também é para elas”, assim como para os funcionários das Nações Unidas que “as acompanham todos os dias” e, “muitas vezes, à custa da própria vida”.

Guterres considerou que no momento em que deixa a ONU, o multilateralismo enfrenta “cinco provas decisivas”: a prevenção, procura e manutenção da paz; a garantia da dignidade de todas as pessoas; a equidade; a justiça climática e o controlo e regulação da revolução tecnológica em curso, associada à Inteligência Artificial.

“Cinco provas e, no fundo, uma mesma exigência: submeter a força ao direito e o poder ao bem comum”, afirmou.

Para Guterres, a paz só é possível se o mundo “funcionar em rede, unido a um direito internacional que todos respeitem e com instituições em que todos os países tenham voz”.

“As estruturas envelhecem, mas os valores permanecem”, sublinhou, antes de referir que está em curso uma tentativa de reformar a Organização das Nações Unidas, que continua a refletir o mundo de 1945, saído da Segunda Guerra Mundial.

No entanto, nenhuma reforma é possível ou sustentável “sem um novo impulso da razão”, acrescentou.

“A nossa época precisa de coragem frente à mentira, ao ódio e à lei do mais forte, ainda que seja impopular e arriscado”, apelou António Guterres.

Para o líder da ONU, as universidades “são insubstituíveis” neste contexto, porque nelas se aprende a “duvidar, verificar e debater”, pelo que é preciso proteger “a liberdade académica e a independência da investigação”.

Guterres pediu também aos estudantes para “participarem plenamente nas decisões que darão forma ao seu futuro e ao de todos”.

O secretário-geral das Nações Unidas recebeu hoje o doutoramento ‘honoris causa’ da Universidade de Salamanca, Espanha, numa cerimónia em que esteve o Presidente da República portuguesa, António José Seguro.

A concessão deste título a António Guterres insere-se nas celebrações do V Centenário da Escola de Salamanca, disse a universidade espanhola, num comunicado.

“A figura de António Guterres projeta os ideais estratégicos da Universidade de Salamanca na transferência para a sociedade, através de compromissos éticos baseados na justiça social, a convivência e a defesa dos direitos individuais das pessoas”, disse o vice-reitor da instituição, José Miguel Mateos Roco, citado num comunicado.

Para José Miguel Mateos Roco, Guterres é um intelectual e um estadista “que dedicou a sua carreira a humanizar a governação global e a defender ativamente a dignidade intrínseca de cada ser humano”, com “coerência tenaz” numa trajetória política “orientada para traduzir os ideais de justiça distributiva em normativas de grande alcance”.

A Universidade de Salamanca realçou que o doutoramento ‘honoris causa’ é a máxima distinção académica que concede sempre a “figuras de reconhecido prestígio internacional no âmbito científico, cultural, profissional ou pessoal”.

   *** Margarida Pinto, enviada da agência Lusa ***

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